Acordei tonto às seis e tanta de uma quarta-feira. Meu único porre na viagem toda, pra ser sincero e foi no dia de nossa volta. Fui ao banheiro dar uma mijada, passei na cozinha e bebi bons possíveis meio litro de guaraná e meio litro de água, mas ainda assim eu continuei um pouco tonto. Fui falar com o Blue para irmos à praia - lá pelas sete e meia, quando consegui me agüentar em pé numa boa - para, na volta, arrumarmos a casa e partirmos numa boa. Ele se relutou a acordar e falou pra chamá-lo às nove. Pois bem, eu já sabia que seria assim, então meio que não liguei e fui assim mesmo.
A praia nunca foi tão boa, a água nunca foi tão gostosa e o vento nunca foi tão cadenciado quanto nesta manhã, mas reconheço que esta era apenas minha consciência finalmente percebendo que esta seria minha última manhã em Saquarema neste fatídico mês de fevereiro. Enquanto vislumbrava o horizonte com um cigarro, acolhido ao colo dado pelo meu lábio inferior que constantemente recebia o carinho do abraço de meus indicador e polegar direitos, eu pensava nas nuvens que timidamente se afastavam do abraço dado entre o céu e o mar apenas para que eu pudesse ter em minha memória a foto perfeita da paisagem que iria assombrar meus sonos com saudades. Neste momento eu pude compreender a atenção que o universo dedicava a mim e então pude agradecer e desejar que todas as demais pessoas neste mundo pudessem compartilhar desta atenção, destes cuidados. Olhei para a areia e os tatuís faziam festa para o Sol da manhã, ignorando a maré que subia e os levava de quando em vez e pensei em voltar para a casa de Blue para começar a arrumar o quarto de hóspedes.
Aos poucos, Blue e Júlio César foram acordando e os trabalhos começaram. Não que eu tenha aversão ao trabalho braçal, mas nunca fui muito chegado a lavar louças com as mãos nuas, então esta foi uma tarefa de muito empenho, muita dificuldade pra mim. O fato de que não havia água na cozinha da casa foi só um obstáculo a mais, para valorizar mais minha vitória. Cheguei a enfrentar o que julgo ter sido o Moby Dick dos copos: era um copo de requeijão que carregava desenhos de uma animação da Disney, Pocahontas, que estava engordurado, submerso na pia entupida e carregava pedaços de macarrão em boa parte de sua constituição, além de uma encorpada e pegajosa camada de uma bebida barata em seu fundo. Admito que cheguei a ter uma moderada ânsia de vômito, mas a vitória era importante demais para sucumbir no meio do caminho. Por fim, terminei os copos e Blue me falou que um outro povo que a gente deveria ver estava na praia e meu trabalho estaria, por hora, interrompido. Salvo pelo gongo, como diriam algumas pessoas.
Voltando à praia, encontramos esse pessoal e entre eles estava Miguel, um guri que estava conosco até o dia anterior. Bom rapaz - meio seqüelado, como cada um de nós -, com uma acanhada paixão pela vida e olhos de quem a observa de longe, envergonhado. Isso me trazia certa identificação e me agradava. Já o conhecia de outros carnavais, como os demais daquele outro grupo, e me arrependo de algo que fiz sem querer, sem pensar; sem saber, pra ser mais exato. Não que ele estivesse no topo da minha “lista de pessoas que não gostaria de ferrar”, mas ferrá-lo foi extremamente desagradável e é motivo de arrependimento para mim até hoje. No lugar dele, sem dúvidas, não gostaria de mim, mas acho que isso faz dele mais evoluído que eu.
Sentei com o pessoal, mas não interagi muito. Distraí-me pela lembrança, pelo horizonte, pelo trago do cigarro e pelo brilho do Sol. Aqueles pores-do-sol que tive a honra de testemunhar foram os mais bonitos que já vi, quando vi o Sol se esconder ao longo das nuvens de fim de tarde, usando o céu como uma palheta de cores, pintando uma tela arco-íris para aqueles que doam seu tempo para vê-lo criar a mais profunda das artes, que sempre se reinventa, que se cria e se destrói todos os dias: toda aurora, todo crepúsculo, toda a vida. Entre tragos, ainda na praia com eles, balbuciava algo sobre a paisagem. A hora passaria e havíamos de nos despedir e voltar para casa, para terminar de fazer as malas e arrumar qualquer pendência.
Neste momento, o mais certo a se fazer é falar sobre Blue e Júlio César; ambos estudaram comigo, nos tempos de moço. Blue fazia o tipo que se encaixava em todo lugar, que não se incomodava com nada, que mal ligava pra nada. Eu poderia dizer que ele seria um Dean Moriarty com uma menor e não tão cega paixão pela vida, mas que ainda carregava o ímpeto de sua existência, o must-do do instinto, o inerte sentido da ação que jamais encontraria atrito que freasse sua investida. Júlio é um caso curioso, é o garoto da cúpula, a defesa perfeita: jamais se poria em posição vulnerável, mas não investe; é estacionário, ainda que ambicioso: apresenta superior desenvoltura em vida acadêmica, mas é tímido, tem um medo de pessoas que chega a ser maior que o meu. Tentava, com freqüência, ajudá-lo, mas ele nunca aceitou a tal ajuda. Ambos estavam inertes: um não parava por nada, outro não se mexia por nada; eram água e pedra em corredeiras. Deslizando por ambos, eu.
Júlio se pôs a lavar o resto da louça, eu lavei os banheiros e Blue deu uma arrumada na casa, até que a água da casa acabou e a louça ficou suja, por lavar. Dando uma volta no quintal, para pegar minha toalha, vi uma cagada no outro lado da casa que depois fiquei sabendo que era do Blue: a água na casa havia acabado há pouco, mas desde o dia anterior, já não havia mais água nos banheiros da casa. Por fim, decidimos que levaríamos a louça suja para o Rio, para a casa de Blue e assim foi feito. Com o desgaste, o pensar e o fazer perdemos o ônibus de uma e meia, indo pegar, então, o ônibus de duas e meia. Saímos um pouco mais cedo da casa e no ponto de ônibus vimos os outros rapazes e papeamos até a chegada de nosso querido e tão esperado transporte. Discutimos o fato de Freud ser superestimado e ainda assim ser referência nos estudos da neuroquímica, como vanguarda, e enfim chegou. Dormi a viagem inteira e ao chegar a Niterói, esperamos pelas barcas. Já nelas pensei na viagem, pensei no luar que caia na lagoa enquanto o céu se vestia com estrelas, ao passo que em terra firme as silhuetas se iludiam entre as sombras de uma deserta e escura rua sem iluminação; pensei no trovoar da ressaca do mar e no quebrar das ondas que se assemelhava ao dobrar de uma folha de papel ofício; no céu tingido de tons púrpuro, à medida que a noite invadia a cidade de Saquarema; na vista privilegiada que é dada àquele que senta na areia da Praia do Boqueirão, em Saquarema; quem senta nesta areia pode apreciar a vista olhando para qualquer direção. E, não com pesar, guardo esses dias na memória. Não com pesar.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
O Casamento e A Infância I
Ouve-se o agudo soar de um sino e o fechar de uma porta: Dmitri chegou ao bar. O bar não estava exatamente cheio, notava-se os mesmos rostos de sempre ao redor das mesas, as mesmas caricatas faces do bêbado, do magrelo com a burlesca, o rapaz que dormia sobre a mesa e Luka, seu amigo caladão, estava ao balcão. Dmitri se sentou.
- É, Luka, as noites estão cada vez mais insuportáveis. EI! Garotão, Jack sem gelo, por favor.
- O que houve dessa vez? Cagaram no teu pau, de novo?
- Haha, antes fosse. Não estou com ninguém, agora, disso eu estou livre.
- Então o que diabos houve? – Perguntou Luka, enquanto bebia um bom gole de sua cerveja.
- Meus pais, meus velhos pais. Amam-se, mas não se agüentam. Eu já não agüento, mas acho que é mais difícil pra mim, já que tenho que agüentar ambos. Ah, obrigado, rapaz. – Dmitri dera uma bela golada em seu uísque - Jack, no entanto, me ajuda, mas acabaram as garrafas lá de casa. Eu havia parado de beber, lembra-se? – E Luka respondia afirmativamente com a cabeça, parando então para continuar bebendo – Parado de fumar também, mas nada dura pra sempre, como o casamento dos velhos. Falando nisso, eu bem preciso fumar agora mesm... O quê? Ambiente fechado? Sair pra fumar? Não, não. Não vale a pena, obrigado. Como ia dizendo, Luka, Vinha conversando com mamãe e tenho a impressão de que ela desmiolou de vez: agora diz que quer conhecer outros homens!
- Outros homens, você diz? – Luka termina sua cerveja e pede outra ao barman.
- Sim! Outros homens! Diz ela que não pretende trair meu pai, que é só pra fazê-lo pagar pelas companhias femininas que ele arranja por aí, mas eu não sei. Pra ser sincero, não queria nem saber. Ela sempre foi mais certinha, então eu já não sei o que pensar. Meu pai é um asno, desde sempre, e isso deixou mamãe meio maluca. Agora, veja você, mamãe acaba importunando meu pai, que se torna mais imbecil, e isso não para. Eu é que me fodo, pior é isso.
- Hmm...
- Hmm, o quê?
- Nada, deixe para lá.
- Fale, diabos!
- Nada, só me perguntava se você não estaria sendo meio egoísta em trazer o problema para si, só isso. – E novamente sua cerveja era atacada.
- Ué, mas se eu não pensar em mim, quem vai pensar? Eles? E se eu não pensar em mim, em quem vou pensar? Neles? Já era pra eles, admita. Demorei a admitir, mas já não há mais o que esconder de mim: o que eu não quero ver, a bebida me mostra. Falando nela: EI, garoto, me sirva mais um Jack, por favor. Enfim, olhe só para todos estes perdedores, aqui no bar: tiveram uma infância ferrada, como a minha, como a tua. Meus pais não conseguiram me ensinar muita coisa, mas graças a eles eu sei que casamento fode qualquer pessoa, inclusive qualquer criança.
- Cada um de nós tem queixas do passado e sabe lidar com cada um dos traumas. Alguns lidam melhor que outros, outros bebem, fumam, cheiram, matam... No fundo, o que importa é sobreviver, não?
- Luka, às vezes me surpreendo com você. Tá, talvez não, mas você fala certas coisas que têm sentido. Ah, obrigado. EI, eu pedi um duplo! Não pedi? Ah, então desculpe, tudo bem. Você me dá um duplo na próxima. Como ia dizendo, meu amigo, olhe para eles: você acha que aquela burlesca está com aquele magrelo por que motivo? Fatalmente, falta-lhe amor próprio. Teve uma infância triste, pois sua mãe a censurava: havia de fazer balé, pois era o destino que sua mãe não teve e que haveria de ser concretizado por sua filha. Não a deixava sair com as amigas, falar com quem quisesse: a pobre criança deu seu primeiro beijo com dezoito anos, penso eu.
- Ainda bem que você é um escritor, você tem uma imaginação e tanto...
- É, acho que sim, além do mais, sendo um escritor eu tenho carta branca para beber e esquecer meus traumas de infância.
- Que traumas de infância?
- Esqueça, Luka, esqueça. Vamos continuar a beber. Meu amigo, me sirva aquele duplo, agora...
- É, Luka, as noites estão cada vez mais insuportáveis. EI! Garotão, Jack sem gelo, por favor.
- O que houve dessa vez? Cagaram no teu pau, de novo?
- Haha, antes fosse. Não estou com ninguém, agora, disso eu estou livre.
- Então o que diabos houve? – Perguntou Luka, enquanto bebia um bom gole de sua cerveja.
- Meus pais, meus velhos pais. Amam-se, mas não se agüentam. Eu já não agüento, mas acho que é mais difícil pra mim, já que tenho que agüentar ambos. Ah, obrigado, rapaz. – Dmitri dera uma bela golada em seu uísque - Jack, no entanto, me ajuda, mas acabaram as garrafas lá de casa. Eu havia parado de beber, lembra-se? – E Luka respondia afirmativamente com a cabeça, parando então para continuar bebendo – Parado de fumar também, mas nada dura pra sempre, como o casamento dos velhos. Falando nisso, eu bem preciso fumar agora mesm... O quê? Ambiente fechado? Sair pra fumar? Não, não. Não vale a pena, obrigado. Como ia dizendo, Luka, Vinha conversando com mamãe e tenho a impressão de que ela desmiolou de vez: agora diz que quer conhecer outros homens!
- Outros homens, você diz? – Luka termina sua cerveja e pede outra ao barman.
- Sim! Outros homens! Diz ela que não pretende trair meu pai, que é só pra fazê-lo pagar pelas companhias femininas que ele arranja por aí, mas eu não sei. Pra ser sincero, não queria nem saber. Ela sempre foi mais certinha, então eu já não sei o que pensar. Meu pai é um asno, desde sempre, e isso deixou mamãe meio maluca. Agora, veja você, mamãe acaba importunando meu pai, que se torna mais imbecil, e isso não para. Eu é que me fodo, pior é isso.
- Hmm...
- Hmm, o quê?
- Nada, deixe para lá.
- Fale, diabos!
- Nada, só me perguntava se você não estaria sendo meio egoísta em trazer o problema para si, só isso. – E novamente sua cerveja era atacada.
- Ué, mas se eu não pensar em mim, quem vai pensar? Eles? E se eu não pensar em mim, em quem vou pensar? Neles? Já era pra eles, admita. Demorei a admitir, mas já não há mais o que esconder de mim: o que eu não quero ver, a bebida me mostra. Falando nela: EI, garoto, me sirva mais um Jack, por favor. Enfim, olhe só para todos estes perdedores, aqui no bar: tiveram uma infância ferrada, como a minha, como a tua. Meus pais não conseguiram me ensinar muita coisa, mas graças a eles eu sei que casamento fode qualquer pessoa, inclusive qualquer criança.
- Cada um de nós tem queixas do passado e sabe lidar com cada um dos traumas. Alguns lidam melhor que outros, outros bebem, fumam, cheiram, matam... No fundo, o que importa é sobreviver, não?
- Luka, às vezes me surpreendo com você. Tá, talvez não, mas você fala certas coisas que têm sentido. Ah, obrigado. EI, eu pedi um duplo! Não pedi? Ah, então desculpe, tudo bem. Você me dá um duplo na próxima. Como ia dizendo, meu amigo, olhe para eles: você acha que aquela burlesca está com aquele magrelo por que motivo? Fatalmente, falta-lhe amor próprio. Teve uma infância triste, pois sua mãe a censurava: havia de fazer balé, pois era o destino que sua mãe não teve e que haveria de ser concretizado por sua filha. Não a deixava sair com as amigas, falar com quem quisesse: a pobre criança deu seu primeiro beijo com dezoito anos, penso eu.
- Ainda bem que você é um escritor, você tem uma imaginação e tanto...
- É, acho que sim, além do mais, sendo um escritor eu tenho carta branca para beber e esquecer meus traumas de infância.
- Que traumas de infância?
- Esqueça, Luka, esqueça. Vamos continuar a beber. Meu amigo, me sirva aquele duplo, agora...
O Casamento e A Infância II
Luka foge da chuva torrencial - que bruscamente encontra seu lugar em meio ao sórdido calor tropical da segunda cidade mais quente do mundo - à procura de um abrigo. Encontra um breve e pequeno teto que protege um ponto de ônibus e assim ele espera sua condução. Faz sinal, pois logo seu ônibus se aproxima, e embarca.
Ao encaminhar-se a um dos assentos, Luka vê Dmitri, um amigo de longa data que não vê há tempos, sentado, solitário.
- Olhando a chuva riscar a janela? Você já foi menos romântico.
- Luka! Não, eu só estava pensando: os anos estão passando rápido e eu não estou ficando mais novo, você sabe como é isso? Não, você não sabe, pois ainda é jovem; eu, por outro lado, estou envelhecendo rápido demais. Talvez seja a vida. Você envelhece por conta dos seus cigarros, da sua bebida, mas já aprendi a conviver com isso: o que mais me desgasta, mesmo, é a vida.
- Dmitri, mas já parei de fumar. Aliás, você também não tinha parado de fumar?
- Você já deveria saber que é mais fácil você parar de fumar do que eu. Enfim, a grande questão é que eu já não deveria mais estar sozinho, pois já não tenho saco de ficar conhecendo tantas pessoas, entende? Eu deveria aceitar que não conheci o par ideal e conviver com a melhor opção que eu posso manter. Não posso envelhecer sozinho, o que seria de mim? Aliás, o que pensariam de mim?
- É realmente mais importante pra você o que os outros pensam do que seu bem estar?
- Até parece que você não me conhece. Pra ser sincero, já nem consigo mais escrever! Esse tempo inconstante me mata: ao sol de cinqüenta graus, eu morro, praticamente! Fico prostrado em minha cama, com uma garrafa de cerveja molhando minha garganta incessantemente. Nos dias de chuva, fico hipnotizado pelo riscar da janela, observando a corrida entre as gotas, apostando na que chegaria primeiro na sacada. Talvez eu não esteja inspirado, é que eu sinto medo, sabe?
- Esse cara não parece você, eu vou descer aqui.
- Pare com isso! Sou humano, ainda que não pareça algumas vezes...
- Como quando você bebe?
- Isso!
- Mas você bebe o tempo todo...
- A questão é que eu estou envelhecendo e não posso deixar de lado uma necessidade fisiológica minha: deixar meu legado.
- Mas você já tem dois livros publicados, o que mais você quer deixar pra humanidade? Nunca imaginei que você quisesse ser tão presente.
- Um filho, Luka, um filho! Entende? Já era tempo de deixar uma criança nesse mundo pra carregar o fardo do meu sangue, como um bom Buendía, entende?
- Lá vem você com essa intertextualidade.
- Vá à merda! Estou falando sério, preciso deixar meu legado, desenvolver os traumas. Meus pais me cagaram para este mundo, então talvez seja hora de gerar outro ser vivo que possa ser cagado e que possa contribuir com seus traumas para a arte contemporânea, mas, claro, sem perder o charme de alguma escola literária passada. Barroco, de preferência. Barroco...
- Hmm, meu ponto é aqui, Dmitri. Até logo.
- Luka, não vá! Luka! Luka!
E, neste momento, o ônibus volta a andar, deixando Luka para trás e Dmitri a voltar a apostar em uma gota em particular...
Ao encaminhar-se a um dos assentos, Luka vê Dmitri, um amigo de longa data que não vê há tempos, sentado, solitário.
- Olhando a chuva riscar a janela? Você já foi menos romântico.
- Luka! Não, eu só estava pensando: os anos estão passando rápido e eu não estou ficando mais novo, você sabe como é isso? Não, você não sabe, pois ainda é jovem; eu, por outro lado, estou envelhecendo rápido demais. Talvez seja a vida. Você envelhece por conta dos seus cigarros, da sua bebida, mas já aprendi a conviver com isso: o que mais me desgasta, mesmo, é a vida.
- Dmitri, mas já parei de fumar. Aliás, você também não tinha parado de fumar?
- Você já deveria saber que é mais fácil você parar de fumar do que eu. Enfim, a grande questão é que eu já não deveria mais estar sozinho, pois já não tenho saco de ficar conhecendo tantas pessoas, entende? Eu deveria aceitar que não conheci o par ideal e conviver com a melhor opção que eu posso manter. Não posso envelhecer sozinho, o que seria de mim? Aliás, o que pensariam de mim?
- É realmente mais importante pra você o que os outros pensam do que seu bem estar?
- Até parece que você não me conhece. Pra ser sincero, já nem consigo mais escrever! Esse tempo inconstante me mata: ao sol de cinqüenta graus, eu morro, praticamente! Fico prostrado em minha cama, com uma garrafa de cerveja molhando minha garganta incessantemente. Nos dias de chuva, fico hipnotizado pelo riscar da janela, observando a corrida entre as gotas, apostando na que chegaria primeiro na sacada. Talvez eu não esteja inspirado, é que eu sinto medo, sabe?
- Esse cara não parece você, eu vou descer aqui.
- Pare com isso! Sou humano, ainda que não pareça algumas vezes...
- Como quando você bebe?
- Isso!
- Mas você bebe o tempo todo...
- A questão é que eu estou envelhecendo e não posso deixar de lado uma necessidade fisiológica minha: deixar meu legado.
- Mas você já tem dois livros publicados, o que mais você quer deixar pra humanidade? Nunca imaginei que você quisesse ser tão presente.
- Um filho, Luka, um filho! Entende? Já era tempo de deixar uma criança nesse mundo pra carregar o fardo do meu sangue, como um bom Buendía, entende?
- Lá vem você com essa intertextualidade.
- Vá à merda! Estou falando sério, preciso deixar meu legado, desenvolver os traumas. Meus pais me cagaram para este mundo, então talvez seja hora de gerar outro ser vivo que possa ser cagado e que possa contribuir com seus traumas para a arte contemporânea, mas, claro, sem perder o charme de alguma escola literária passada. Barroco, de preferência. Barroco...
- Hmm, meu ponto é aqui, Dmitri. Até logo.
- Luka, não vá! Luka! Luka!
E, neste momento, o ônibus volta a andar, deixando Luka para trás e Dmitri a voltar a apostar em uma gota em particular...
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Difícil dizer...
Os limites da obsessão. Até onde é paixão, onde começa a dependência...
Há muitas formas de dependência...
Há muitas formas de dependência...
Caixas de Cigarro
É difícil ter você longe de mim
Sinto falta de ter você em minhas mãos
Não, eu nunca disse que você é importante
Antes eu negava, até hoje eu nego
Ter você em meus lábios
Sabe os momentos de tensão?
Não sobreviveria sem você ao meu lado
Ou, pelo menos, nisso eu acreditava
Quantas noites eu passei acordado
Procurando você em tanta caixa de cigarro
Vazia?
Vazia?
É difícil ter você longe de mim
Sinto falta de ter você em minhas mãos
Não, eu nunca disse que você é importante
Antes eu negava, até hoje eu nego
Ter você em meus lábios
Sabe os momentos de tensão?
Não sobreviveria sem você ao meu lado
Ou, pelo menos, nisso eu acreditava
Quantas noites eu passei acordado
Procurando você em tanta caixa de cigarro
Vazia?
Vazia?
sábado, 26 de dezembro de 2009
Os Labirintos e A Angústia
Eu poderia dizer que foi uma véspera de Natal, que foi numa véspera de Natal, mas era, na verdade, a véspera da véspera, um dia que não era importante pra quem não vivia um dia após o outro.
Enfim, já não importava e eu já estava ficando louco. Finalmente me encontrava mais livre, leve, solto, essas coisas para as quais damos valor, mas eu não me sentia melhor. Sentia a falta de algo, sentia algo fora de lugar. Pra ser sincero, é habitual eu me sentir deslocado, mas me sentir assim ainda que estando em estado de solitude para mim era novidade. Isso me dizia que eu não me sentia à vontade nem comigo, mesmo.
Para piorar, em meu lar havia uma tensão de dimensões para mim até então desconhecidas. Se até então eu descrevia certas tensões como sendo tão densas que poderiam ser cortadas por uma faca, assim o fazia sem saber que esta tensão é real. Meus pais, que nutriam um casamento sadio e com constantes brigas, mantinham uma Guerra Fria particular do mesmo lado do muro, sem ter onde, nem o que esconder. Entre os dois, eu.
Eu já não sabia como mantinha essa vida absurda e me livrar desta falta de lógica já havia passado pela minha cabeça por várias vezes, nessee ddia mesmo, mas eu sempre dou mais uma chance à vida, como o homem absurdo que sou.
Passei o dia escutando Donna, de Charlie Parker, Bitches Brew, de Miles Davis, e Stang’s Swang, de Stevie Ray Vaughan, na esperança de esquecer a Ana, menina dos labirintos de Humberto. Ana não me queria, fosse lá o porquê, e isso me entristecia. Gostava dela e já não me via com outra mulher, algo meio doentio, talvez, mas a verdade é essa. Já não sabia o que sentia, mas sua ausência me fez chorar. Decidi sair pra ver se melhorava, já sabendo que não teria sucesso, então liguei para Jackson e Goldenberg para marcar algo para oito horas. Saí e logo encontrei Jackson, na Vanhargem, e fomos juntos, então, comprar cigarros, ao passo que, ao voltar, comentei de um bar cuja cerveja era barata e para lá partimos.
Talvez esteja duro demais, mas já não tenho mais dinheiro para me embebedar de forma segura, então permaneci bêbado demais para estar sóbrio e sóbrio demais para perder a timidez. Ainda assim passamos algum tempo falando de nossa irmandade, de religião e de mulheres. Lembrei de Ana e bebi de uma forma descontrolada, sem saber o porquê, como tudo o que a envolve. Não havia motivo para essa paixão, mas Lobão já dizia “a paixão não tem nada a ver com a vontade”.
Esperamos o judeu chegar e nos encostamos por lá, na praça, para ver aquelas garotas de dezesseis, cheias de vida, desfilarem pela calçada, mas nem elas me animavam. Quando Goldenberg chegou, ficamos a ver as lolitas um pouco mais e entramos numa boate por lá. Não era nenhuma maravilha e pra falar a verdade foi um dos piores lugares em que pisei. Literalmente, até, pois o chão era grudento.
Lá, havia uma gata de camisa listrada que espantei, pois fui coagido a tentar a sorte com ela, mas meus dotes de retórica e manipulação, quando sóbrio, se reduzem a zero por conta da timidez. A menina-zebra tinha uma voluptuosa bunda cujo rebolado era demasiadamente sedutor, ao passo que uma noite com ela seria inesquecível, sem dúvidas.
Nós aproveitamos para dançar e então, confesso, me senti melhor. Talvez tenha expulsado toda a angústia, momentaneamente. Bem sabia que tal sentimento voltaria com meu próximo contato com Ana, mas, deste modo, ganhei tempo.
Depois de um tempo, a música eletrônica se tornou pagode e eu saí de lá, deixando Jackson e Goldenberg, sem paciência. Os meninos não me entenderam bem, mas aceitaram. Eu só queria voltar para casa e escrever sobre minha angústia.
E assim o fiz...
Enfim, já não importava e eu já estava ficando louco. Finalmente me encontrava mais livre, leve, solto, essas coisas para as quais damos valor, mas eu não me sentia melhor. Sentia a falta de algo, sentia algo fora de lugar. Pra ser sincero, é habitual eu me sentir deslocado, mas me sentir assim ainda que estando em estado de solitude para mim era novidade. Isso me dizia que eu não me sentia à vontade nem comigo, mesmo.
Para piorar, em meu lar havia uma tensão de dimensões para mim até então desconhecidas. Se até então eu descrevia certas tensões como sendo tão densas que poderiam ser cortadas por uma faca, assim o fazia sem saber que esta tensão é real. Meus pais, que nutriam um casamento sadio e com constantes brigas, mantinham uma Guerra Fria particular do mesmo lado do muro, sem ter onde, nem o que esconder. Entre os dois, eu.
Eu já não sabia como mantinha essa vida absurda e me livrar desta falta de lógica já havia passado pela minha cabeça por várias vezes, nessee ddia mesmo, mas eu sempre dou mais uma chance à vida, como o homem absurdo que sou.
Passei o dia escutando Donna, de Charlie Parker, Bitches Brew, de Miles Davis, e Stang’s Swang, de Stevie Ray Vaughan, na esperança de esquecer a Ana, menina dos labirintos de Humberto. Ana não me queria, fosse lá o porquê, e isso me entristecia. Gostava dela e já não me via com outra mulher, algo meio doentio, talvez, mas a verdade é essa. Já não sabia o que sentia, mas sua ausência me fez chorar. Decidi sair pra ver se melhorava, já sabendo que não teria sucesso, então liguei para Jackson e Goldenberg para marcar algo para oito horas. Saí e logo encontrei Jackson, na Vanhargem, e fomos juntos, então, comprar cigarros, ao passo que, ao voltar, comentei de um bar cuja cerveja era barata e para lá partimos.
Talvez esteja duro demais, mas já não tenho mais dinheiro para me embebedar de forma segura, então permaneci bêbado demais para estar sóbrio e sóbrio demais para perder a timidez. Ainda assim passamos algum tempo falando de nossa irmandade, de religião e de mulheres. Lembrei de Ana e bebi de uma forma descontrolada, sem saber o porquê, como tudo o que a envolve. Não havia motivo para essa paixão, mas Lobão já dizia “a paixão não tem nada a ver com a vontade”.
Esperamos o judeu chegar e nos encostamos por lá, na praça, para ver aquelas garotas de dezesseis, cheias de vida, desfilarem pela calçada, mas nem elas me animavam. Quando Goldenberg chegou, ficamos a ver as lolitas um pouco mais e entramos numa boate por lá. Não era nenhuma maravilha e pra falar a verdade foi um dos piores lugares em que pisei. Literalmente, até, pois o chão era grudento.
Lá, havia uma gata de camisa listrada que espantei, pois fui coagido a tentar a sorte com ela, mas meus dotes de retórica e manipulação, quando sóbrio, se reduzem a zero por conta da timidez. A menina-zebra tinha uma voluptuosa bunda cujo rebolado era demasiadamente sedutor, ao passo que uma noite com ela seria inesquecível, sem dúvidas.
Nós aproveitamos para dançar e então, confesso, me senti melhor. Talvez tenha expulsado toda a angústia, momentaneamente. Bem sabia que tal sentimento voltaria com meu próximo contato com Ana, mas, deste modo, ganhei tempo.
Depois de um tempo, a música eletrônica se tornou pagode e eu saí de lá, deixando Jackson e Goldenberg, sem paciência. Os meninos não me entenderam bem, mas aceitaram. Eu só queria voltar para casa e escrever sobre minha angústia.
E assim o fiz...
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Um coração partido é a maior fonte de amor.
“-Não quero mais estar com você, simples assim.
-Mas o que houve? Sempre estivemos juntos, por que mudaria agora?”
A ordem nunca atrapalhou as lamúrias. O fim sempre foi igual ao início, pois a solidão é única.
-Mas o que houve? Sempre estivemos juntos, por que mudaria agora?”
A ordem nunca atrapalhou as lamúrias. O fim sempre foi igual ao início, pois a solidão é única.
Depois da tormenta...
... Vem a tormenta. A arte retorna como um grande tufão.
Vera e Estranhos, agora.
Vera e Estranhos, agora.
Vera (Verdade)
Marquises marcavam lugares por onde parei
Passaram-se bares por onde passei
E fiquei a ver a verdade mudar
Eu fiquei a ver a verdade fitar os seus olhos, Vera
Ela sorria sem ver, sem ver mal algum
Você me dizia que via a verdade e como as coisas eram
E elas não eram mais do que o normal
Descendo na Estação Cinelândia e subindo as escadas rolantes
Rolando de tudo à luz do neon das noites de sexta na Lapa
Eu fiquei a ver a verdade fitar os seus olhos, Vera
Você já me diz não haver mal nenhum
Prometi a você que veria a verdade e como as coisas eram
E elas se mostraram fora do comum
-------------------------------------------------------------------------------------
(Estranhos) Estranhos
Alinhando os lábios, sempre à procura
Do filtro do cigarro entre um trago e outro
Labirintos armados por uma rua escura
Que espera o dia nascer
Atrás das grades está minha língua
Querendo fugir para tua prisão
Camas desarrumadas numa manhã tão cinza
Servem de abrigo para a solidão
Alinhando os lábios à procura dos seus
Entre um cigarro e outro, mais um trago
Sóbrios amargos, estamos à procura de Deus
Esperando o dia morrer mais uma vez
Passaram-se bares por onde passei
E fiquei a ver a verdade mudar
Eu fiquei a ver a verdade fitar os seus olhos, Vera
Ela sorria sem ver, sem ver mal algum
Você me dizia que via a verdade e como as coisas eram
E elas não eram mais do que o normal
Descendo na Estação Cinelândia e subindo as escadas rolantes
Rolando de tudo à luz do neon das noites de sexta na Lapa
Eu fiquei a ver a verdade fitar os seus olhos, Vera
Você já me diz não haver mal nenhum
Prometi a você que veria a verdade e como as coisas eram
E elas se mostraram fora do comum
-------------------------------------------------------------------------------------
(Estranhos) Estranhos
Alinhando os lábios, sempre à procura
Do filtro do cigarro entre um trago e outro
Labirintos armados por uma rua escura
Que espera o dia nascer
Atrás das grades está minha língua
Querendo fugir para tua prisão
Camas desarrumadas numa manhã tão cinza
Servem de abrigo para a solidão
Alinhando os lábios à procura dos seus
Entre um cigarro e outro, mais um trago
Sóbrios amargos, estamos à procura de Deus
Esperando o dia morrer mais uma vez
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
A Última Gota
Dmitri estava apertado. Tanta vodka não faria bem a ninguém, mas isso nunca quis dizer muita coisa pra ele. No caminho, estava pensando na última gota de suor que correria pelo seu corpo. O Rio de Janeiro era uma cidade quente, não havia dúvidas. Seu suor o cobria como que derramasse um pouco de si sob a calçada, um pouco de vida que ficava pra trás e deixava sua marca molhada no cimento pelo qual passava. Dmitri refletia, enquanto perdia sua vida aos poucos, nas suas últimas gotas de suor.
Quando Dmitri acreditou que não poderia mais suportar o castigo do poderoso Sol, quando acreditou que não havia mais máculas para justificar uma punição cruel que só aqueles que viviam sob o Trópico de Capricórnio conheciam, neste momento, sentiu as primeiras gotas de orvalho que o abraçariam, trariam o carinho que tanto esperava e que cuidariam de seus ferimentos. Lembrou-se de quando era uma criança e dos dias em que olhava para o mundo pelo lado de dentro da janela, com o rabiscar d’água passeando pelo vidro enquanto os estalos se propagavam pelas sacadas e as poças se formavam nos buracos do asfalto. Memórias ternas de quando seu pai chegava atrasado e, ainda assim, com um sorriso no rosto, com a indisfarçável saudade que sentia da família. Foi quando se lembrou da saudade que sentia de seu pai. Velho, decrépito, estava morto, ainda que entre os vivos. Uma vida de decepções havia consumido seu coração e sua alma, o tornando irreconhecível. Seu rosto, agora destorcido, estava amargo. Suas mãos, enrugadas e descascadas, não se encontravam sem um cigarro entre seus dedos por mais de cinco minutos. Seus olhos, que brilhavam leves com a esperança e com os sonhos dos bem-aventurados, agora estavam opacos e pesados. Seu peito, que carregava vida, agora estava vazio. Dmitri entendia que uma vida absurda era mortal para quem tem o simples apreço pela vida, mas nunca foi capaz de entender que seu pai foi dono das escolhas que fez e que se era infeliz, este era apenas o retrato que um dia pintara. Ele, então, começou a culpar a sociedade como seu pai o fez, antes de perder sua sanidade. Dmitri, então, observava a última gota de chuva cair sobre seus lábios.
Foi então que se deu conta de que seu dia-a-dia era vazio e que sua vida não tinha sentido. Estudava para se tornar uma pessoa comum, com seu trabalho comum, que ganharia seu dinheiro comum. Nada contra a mediocridade, mas naquele momento Dmitri percebeu que não sabia o porquê de cada atitude sua. Não sabia o porquê de seu trabalho, o porquê de seu dinheiro, ou o porquê de sua vida. Babaquices filosóficas à parte, pondo o prático no prático e o real entre seus iguais, ele quis ser tanto, no entanto se tornou quase nada. Não era feliz com sua escolha, não compreendia que havia certo glamour na figura de um indigente, certo charme que só um John Doe teria. A indiferença lhe assustava, lhe era feia. Não entendia que os homens eram todos iguais, uns mais iguais que os outros, tão desiguais. Estava sentindo que a última gota se aproximava e que iria transbordar em breve.
Nem percebeu que havia chegado em casa, graças aos pensamentos que sem piedade bombardeavam sua vã consciência, e logo foi ao banheiro. Acalmava-se, aos poucos, quando, ao terminar, pensou em algo absurdo como sua vida. “A última gota sempre cai na cueca”, pensou Dmitri. Sua resposta, dada em voz alta, foi “Foda-se.”.
Dmitri vestiu-se rapidamente, sem balançar, lavou suas mãos e se dirigiu à sua máquina de escrever.
Quando Dmitri acreditou que não poderia mais suportar o castigo do poderoso Sol, quando acreditou que não havia mais máculas para justificar uma punição cruel que só aqueles que viviam sob o Trópico de Capricórnio conheciam, neste momento, sentiu as primeiras gotas de orvalho que o abraçariam, trariam o carinho que tanto esperava e que cuidariam de seus ferimentos. Lembrou-se de quando era uma criança e dos dias em que olhava para o mundo pelo lado de dentro da janela, com o rabiscar d’água passeando pelo vidro enquanto os estalos se propagavam pelas sacadas e as poças se formavam nos buracos do asfalto. Memórias ternas de quando seu pai chegava atrasado e, ainda assim, com um sorriso no rosto, com a indisfarçável saudade que sentia da família. Foi quando se lembrou da saudade que sentia de seu pai. Velho, decrépito, estava morto, ainda que entre os vivos. Uma vida de decepções havia consumido seu coração e sua alma, o tornando irreconhecível. Seu rosto, agora destorcido, estava amargo. Suas mãos, enrugadas e descascadas, não se encontravam sem um cigarro entre seus dedos por mais de cinco minutos. Seus olhos, que brilhavam leves com a esperança e com os sonhos dos bem-aventurados, agora estavam opacos e pesados. Seu peito, que carregava vida, agora estava vazio. Dmitri entendia que uma vida absurda era mortal para quem tem o simples apreço pela vida, mas nunca foi capaz de entender que seu pai foi dono das escolhas que fez e que se era infeliz, este era apenas o retrato que um dia pintara. Ele, então, começou a culpar a sociedade como seu pai o fez, antes de perder sua sanidade. Dmitri, então, observava a última gota de chuva cair sobre seus lábios.
Foi então que se deu conta de que seu dia-a-dia era vazio e que sua vida não tinha sentido. Estudava para se tornar uma pessoa comum, com seu trabalho comum, que ganharia seu dinheiro comum. Nada contra a mediocridade, mas naquele momento Dmitri percebeu que não sabia o porquê de cada atitude sua. Não sabia o porquê de seu trabalho, o porquê de seu dinheiro, ou o porquê de sua vida. Babaquices filosóficas à parte, pondo o prático no prático e o real entre seus iguais, ele quis ser tanto, no entanto se tornou quase nada. Não era feliz com sua escolha, não compreendia que havia certo glamour na figura de um indigente, certo charme que só um John Doe teria. A indiferença lhe assustava, lhe era feia. Não entendia que os homens eram todos iguais, uns mais iguais que os outros, tão desiguais. Estava sentindo que a última gota se aproximava e que iria transbordar em breve.
Nem percebeu que havia chegado em casa, graças aos pensamentos que sem piedade bombardeavam sua vã consciência, e logo foi ao banheiro. Acalmava-se, aos poucos, quando, ao terminar, pensou em algo absurdo como sua vida. “A última gota sempre cai na cueca”, pensou Dmitri. Sua resposta, dada em voz alta, foi “Foda-se.”.
Dmitri vestiu-se rapidamente, sem balançar, lavou suas mãos e se dirigiu à sua máquina de escrever.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Untitled
Talvez seja surpresa pra uns, mas eu faço parte de uma irmandade. Era freqüente, em meus anos de mocidade. Não costumo falar sobre isso, até evito, mas estou citando isso porque é algo essencial para o que vou dizer a seguir.
Era uma e meia e eu saí de casa, para encontrar Fernando e, assim, irmos de encontro a um rapaz que estava sendo indicado por um tio nosso. Fê tinha o endereço e os telefones, mas sequer sabíamos o bairro onde o garoto morava. Era neto da antiga caseira do condomínio onde costumávamos atuar.
Cheguei as duas e quarenta no Flamengo, em frente ao prédio do Fê, e liguei duas vezes para ele, mas ninguém atendeu, logo decidi subir, pois esperar nem me parecia uma boa opção. Subi e fui recebido por alguém que não fazia idéia de quem era, enfim, ele estava no banho e eu deveria esperar e assim o fiz. Cochilei, no meio tempo, até que ele saiu do banho, descobrimos o bairro e nos pusemos a ir. A Vargem era grande e a viagem longa.
Pegamos um três oito dois na Praia de Botafogo, e passeamos pela orla. Copacabana, pela Atlântica, é tão linda. Vieira Souto, em Ipanema, nossa. O Sheraton passou por nós, quando passávamos pela Niemeyer. Ao passar pela Ponte da Joatinga, finalmente me dei conta de inúmeras memórias que já se perdiam após anos e anos. Época em que morava no Flamengo e cruzava essa ponte – que sempre me impressionou – quando ia com meus pais dar uma volta, desde que nasci até meus onze anos. Eu fiquei atordoado, no momento, pois de tanto, de tudo, me lembrei. De toda a arquitetura da ponte, dos túneis, o cheiro da maresia naquela ponte, do mar, das ilhas que fugiam para o horizonte. Saudosismo, por que me abraças?
De todo modo, seguimos sempre em frente, passando pela Ministro Ivan Lins, enfrentando um pouco do trânsito parado. Não desgosto de ficar na estrada, ou nas ruas, dentro de uma condução, esperando o destino chegar. Pra ser sincero, adoro, mas se há alguma coisa que eu detesto é engarrafamento. Não suporto e explodiria todos os carros, se pudesse, ou dirigiria um desses Monster Trucks, para passar por cima de cada um dos carros que quisesse desafiar a força incessante do ímpeto natural de seguir em frente.
Passado o engarrafamento, continuamos. Já havia se passado uma hora de viagem e ainda estávamos no Recreio. Fê havia ligado para a Tia e ela nos deu uma referência, para que pudéssemos usar na hora certa de saltar do ônibus. A trocadora desconhecia a referência e ficou por isso mesmo. Decidimos esperar. Ao passar por Vargem Pequena, pedimos ajuda a outra senhora que nos apontou com precisão o ponto no qual deveríamos descer e onde a rua estaria ao descermos. Descemos e resolvemos dar uma mijada no mato. Apontei meu pênis para Fê e ameacei mijar nele, mas minha razão falou mais alto e eu mirei numa árvore. Enfim fomos rumo a tal rua.
Um dado curioso sobre a rua é que o número das casas que nela se encontravam se embaralhava. Não havia um lado específico para casas de número ímpar ou par. E tava tudo tão estranho, havia uma neblina. Fê e eu brincamos que estávamos em Silent Hill e aquela rua não fazia sentido, até porque, no fundo, não fazia. Ela desembocava numa pracinha onde não havia essa casa. E aí? Bem, pedimos arrego e fomos a um bar perguntar aos donos do estabelecimento sobre a tal casa. Eles nos disseram que não havia tal casa lá - o que reforçava a idéia de Fê que estávamos em Silent Hill -, mas que havia outras ruas homônimas pela região, uma mais ao fim da estrada, outra lá atrás, no Recreio, no Terreirão, mais especificamente. Xinguei Deus, o mundo e o Fê e me mandei de lá com ele. Pegamos um setecentos e três e paramos após passarmos o Recreio Shopping e lá pedimos informação a um feirante que ficava por lá. Ele ficou passando um papo estranho, dizendo saber onde fica a tal rua, que mora lá perto, ia levar a gente lá, enfim, tudo bem. O cara parecia ser prestativo. O papo só ficou estranho quando ele disse que não tinha certeza se aquela era a rua, pois vivia lá de aluguel e não sabia o nome da rua onde morava. AÍ eu me preocupei.
Quando comecei a escrever meu romance, citei Kerouac ao dizer que num país de terceiro mundo como o Brasil, onde o desigual mora ao lado, viajávamos ao México todo dia da semana. Pois bem, sempre vi a pobreza de longe, seja em livros, em televisões, em obras sociais relativamente próximas aos locais, ou no trajeto de volta para casa, mas nunca estive tão perto, nunca pisei num chão revestido pelas lágrimas e pelo suor do trabalho. E ao lado, um Shopping Center bem estruturado, a menos de cinco quilômetros. Me fez pensar, isso.
Voltando, depois de nos perdermos do cara e nos perdermos no bairro, procuramos a tal rua até que achamos a rua e a casa. A casa da Tia era uma casa bem bacana e destoava das demais do bairro. Era bem tratada e aconchegante e eu me senti melhor ao saber que ela e sua família moravam bem, lá. Conversamos por muito tempo sobre pessoas. Sobre as pessoas que passaram pela irmandade. Pelos fatos, pelas idéias que por ali passaram, também. Foi gostoso, foi um tipo de saudosismo próximo, pois eram saudades de pessoas com quem convivo. Enfim, logo mais fizemos o que deveria ser feito, agradecemos a hospitalidade e demos o fora. Pegamos um ônibus que passava pela orla e voltamos pro Flamengo. No meio do trajeto, em algum lugar do Recreio, tive uma visão. Na visão, Dylan me dizia para eu não me preocupar, apenas ser feliz e por cinco longos minutos eu o ouvi assobiar, até que adormeci. Adormeci pensando no dia em que voltaria para o meu Flamengo – bairro, claro, pois não renuncio o meu tricolor de forma alguma -, para, novamente, sentar à orla e fumar enquanto as estrelas me observariam. Ao chegarmos ao Parque Guinle, avistei um quatro três quatro de longe e rapidamente me despedi do Fê, para poder alcançá-lo. Dei um sprint até chegar ao Princesa, na Senador Vergueiro, pois o puto do motorista não parava pra mim. Eram nove e tanta da noite, mas não tinha me cansado até aquela hora. Talvez isso devesse significar que eu deveria fumar menos. De todo modo, sentado num banco do quatro três quatro, já poderia me considerar em casa. Na verdade já estava em casa e a noite já estava terminando. E terminava a breve noite de terça-feira, junto ao longo dia que a precedeu.
Era uma e meia e eu saí de casa, para encontrar Fernando e, assim, irmos de encontro a um rapaz que estava sendo indicado por um tio nosso. Fê tinha o endereço e os telefones, mas sequer sabíamos o bairro onde o garoto morava. Era neto da antiga caseira do condomínio onde costumávamos atuar.
Cheguei as duas e quarenta no Flamengo, em frente ao prédio do Fê, e liguei duas vezes para ele, mas ninguém atendeu, logo decidi subir, pois esperar nem me parecia uma boa opção. Subi e fui recebido por alguém que não fazia idéia de quem era, enfim, ele estava no banho e eu deveria esperar e assim o fiz. Cochilei, no meio tempo, até que ele saiu do banho, descobrimos o bairro e nos pusemos a ir. A Vargem era grande e a viagem longa.
Pegamos um três oito dois na Praia de Botafogo, e passeamos pela orla. Copacabana, pela Atlântica, é tão linda. Vieira Souto, em Ipanema, nossa. O Sheraton passou por nós, quando passávamos pela Niemeyer. Ao passar pela Ponte da Joatinga, finalmente me dei conta de inúmeras memórias que já se perdiam após anos e anos. Época em que morava no Flamengo e cruzava essa ponte – que sempre me impressionou – quando ia com meus pais dar uma volta, desde que nasci até meus onze anos. Eu fiquei atordoado, no momento, pois de tanto, de tudo, me lembrei. De toda a arquitetura da ponte, dos túneis, o cheiro da maresia naquela ponte, do mar, das ilhas que fugiam para o horizonte. Saudosismo, por que me abraças?
De todo modo, seguimos sempre em frente, passando pela Ministro Ivan Lins, enfrentando um pouco do trânsito parado. Não desgosto de ficar na estrada, ou nas ruas, dentro de uma condução, esperando o destino chegar. Pra ser sincero, adoro, mas se há alguma coisa que eu detesto é engarrafamento. Não suporto e explodiria todos os carros, se pudesse, ou dirigiria um desses Monster Trucks, para passar por cima de cada um dos carros que quisesse desafiar a força incessante do ímpeto natural de seguir em frente.
Passado o engarrafamento, continuamos. Já havia se passado uma hora de viagem e ainda estávamos no Recreio. Fê havia ligado para a Tia e ela nos deu uma referência, para que pudéssemos usar na hora certa de saltar do ônibus. A trocadora desconhecia a referência e ficou por isso mesmo. Decidimos esperar. Ao passar por Vargem Pequena, pedimos ajuda a outra senhora que nos apontou com precisão o ponto no qual deveríamos descer e onde a rua estaria ao descermos. Descemos e resolvemos dar uma mijada no mato. Apontei meu pênis para Fê e ameacei mijar nele, mas minha razão falou mais alto e eu mirei numa árvore. Enfim fomos rumo a tal rua.
Um dado curioso sobre a rua é que o número das casas que nela se encontravam se embaralhava. Não havia um lado específico para casas de número ímpar ou par. E tava tudo tão estranho, havia uma neblina. Fê e eu brincamos que estávamos em Silent Hill e aquela rua não fazia sentido, até porque, no fundo, não fazia. Ela desembocava numa pracinha onde não havia essa casa. E aí? Bem, pedimos arrego e fomos a um bar perguntar aos donos do estabelecimento sobre a tal casa. Eles nos disseram que não havia tal casa lá - o que reforçava a idéia de Fê que estávamos em Silent Hill -, mas que havia outras ruas homônimas pela região, uma mais ao fim da estrada, outra lá atrás, no Recreio, no Terreirão, mais especificamente. Xinguei Deus, o mundo e o Fê e me mandei de lá com ele. Pegamos um setecentos e três e paramos após passarmos o Recreio Shopping e lá pedimos informação a um feirante que ficava por lá. Ele ficou passando um papo estranho, dizendo saber onde fica a tal rua, que mora lá perto, ia levar a gente lá, enfim, tudo bem. O cara parecia ser prestativo. O papo só ficou estranho quando ele disse que não tinha certeza se aquela era a rua, pois vivia lá de aluguel e não sabia o nome da rua onde morava. AÍ eu me preocupei.
Quando comecei a escrever meu romance, citei Kerouac ao dizer que num país de terceiro mundo como o Brasil, onde o desigual mora ao lado, viajávamos ao México todo dia da semana. Pois bem, sempre vi a pobreza de longe, seja em livros, em televisões, em obras sociais relativamente próximas aos locais, ou no trajeto de volta para casa, mas nunca estive tão perto, nunca pisei num chão revestido pelas lágrimas e pelo suor do trabalho. E ao lado, um Shopping Center bem estruturado, a menos de cinco quilômetros. Me fez pensar, isso.
Voltando, depois de nos perdermos do cara e nos perdermos no bairro, procuramos a tal rua até que achamos a rua e a casa. A casa da Tia era uma casa bem bacana e destoava das demais do bairro. Era bem tratada e aconchegante e eu me senti melhor ao saber que ela e sua família moravam bem, lá. Conversamos por muito tempo sobre pessoas. Sobre as pessoas que passaram pela irmandade. Pelos fatos, pelas idéias que por ali passaram, também. Foi gostoso, foi um tipo de saudosismo próximo, pois eram saudades de pessoas com quem convivo. Enfim, logo mais fizemos o que deveria ser feito, agradecemos a hospitalidade e demos o fora. Pegamos um ônibus que passava pela orla e voltamos pro Flamengo. No meio do trajeto, em algum lugar do Recreio, tive uma visão. Na visão, Dylan me dizia para eu não me preocupar, apenas ser feliz e por cinco longos minutos eu o ouvi assobiar, até que adormeci. Adormeci pensando no dia em que voltaria para o meu Flamengo – bairro, claro, pois não renuncio o meu tricolor de forma alguma -, para, novamente, sentar à orla e fumar enquanto as estrelas me observariam. Ao chegarmos ao Parque Guinle, avistei um quatro três quatro de longe e rapidamente me despedi do Fê, para poder alcançá-lo. Dei um sprint até chegar ao Princesa, na Senador Vergueiro, pois o puto do motorista não parava pra mim. Eram nove e tanta da noite, mas não tinha me cansado até aquela hora. Talvez isso devesse significar que eu deveria fumar menos. De todo modo, sentado num banco do quatro três quatro, já poderia me considerar em casa. Na verdade já estava em casa e a noite já estava terminando. E terminava a breve noite de terça-feira, junto ao longo dia que a precedeu.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Ode a Bob
Numa tarde de sol, Dmitri esperava Goldenberg, sob o sol de uma da tarde, em pleno horário de verão.
- Oi. – respondeu ele ao telefone.
- Já te disse o quanto eu te odeio, hoje?
- Calma, eu já estou chegando.
- Eu não disse porque não te odeio mais, agora quero te matar.
- Ei, relaxe, relaxe. Já estou te vendo.
E Goldenberg descia a rampa que o levaria de encontro a Dmitri e ao estádio.
- Não foi tão mal, foi? – perguntava o judeu.
- Tirando o fato de que eu estava sob esse sol de quarenta bons graus e você se atrasou deste jeito, no ar condicionado do metrô, bem...
- Mas eu demorei assim porque eu quase fui assaltado saindo do metrô!
- E eu, vestindo esse tênis de boiola que, além de tudo, é minúsculo? - Dmitri vestia um all star de couro branco, imundo, que um amigo trocara com ele por um par de havaianas. – E o cara que trocou comigo veste trinta e nove! Trinta e nove!
- É, pequeno, o cara. Vem cá, por que aqueles dingos estão olhando pra cá?
- Ah, enquanto você demorava, fiquei sem nada pra fazer, então eu comecei a imaginar a vida daqueles mendigos. Veja você, está vendo aquele que ainda tem alguns dentes? Ele é o João. João passou a vida inteira correndo atrás do mundo por sua mulher, até o dia em que percebeu que ela não valia a pena e a abandonou. O outro, aquele sem a mão esquerda, é o Bob. Oi, Bob! – Gritou Dmitri, enquanto ambos responderam – Bob é gente fina, cara.
- Imagino que seja, sim, mas vamos para a fila? Temos que comprar meu ingresso.
- Depois de atrasar meia hora, você vem me cobrar assiduidade?
Goldenberg não respondeu e ambos seguiram para o final da fila.
- Sabe, eu acho que vai demorar.
- Ah, vai me culpar pelo atraso, de novo?
- Bob é gente fina demais. Perdeu a mão nesse conflito na Faixa de Gaza. Era um homem sem ideais, mas está aleijado por causa de um. Estranho, né?
- Mas o Exército Brasileiro participa do conflito?
- Bob participa. Viva o Bob! –Gritava ele, novamente. Enquanto muitos dos presentes na fila urravam por Bob, outros mandavam Dmitri calar a boca. – Todos acham Bob gente fina.
- Todo Bob é gente fina.
A fila andava, repórteres filmavam. A ascensão do tricolor era motivo de espanto. A tal repórter de quadris belos e fartos e siliconados peitos tentou entrevistar Dmitri, mas ele disse que não dava entrevistas. Ele se achava um babaca. Pois ela também.
Dmitri se despediu de Goldenberg, esse com os ingressos em mãos, e voltou pra casa.
O telefone tocou. Era Sasha, um velho amigo.
- Oi, ligou lá pra tia? – perguntou Sasha.
- Não, eu to ficando sem dinheiro pra essas ligações.
- Mas liga pra inglesinha, lá.
- Alto lá, nunca liguei pra Louise! Ela sempre me ligou, coitada. Ligou tanto pra descobrir que foi coisa de momento, uma aventura de verão.
- Você é um babaca. Fez a pobre criança sofrer.
- A culpa não é minha. Quando a vi na praia, pensei que era mais uma garota do sul nas praias cariocas, mas ao falar com ela, percebi que a vaca loira era gringa, na verdade.
- Sempre pelo caminho mais difícil, né?
- No fácil, elas não são rosa. – disse Dmitri, rindo.
- Você é um babaca.
- Tá, e você vai ligar pra tia? Eu realmente não to com grana pra isso.
- Um dia você vai ver que não tem ninguém mais pra te ajudar. Você suga Deus e o mundo, só pra evitar um esforcinho a mais.
- Entenda bem, você sabe que eu posso ligar, eu sei que eu posso ligar, mas sou um cara tímido.
- O caralho! Você é um mão-de-vaca!
- Como quiser, eu não quero falar com ela. Nem a conheço!
- E você ainda engana algumas pessoas de bem que pensam que você vale algo.
- Isso se chama inteligência. – “Isso se chama sorte!”, retrucou Sasha – Ou isso.
Sasha desligou o telefone.
Dmitri pensava no dia que tinha se passado e já não sabia mais se havia como torná-lo bom. Não, não havia – concluiu. Sabia que Bob saberia viver uma vida melhor que a sua. Então serviu uma generosa dose de uísque e colocou dois cubos de gelo em seu copo e pôs- se a tentar voltar a escrever seu livro.
- Oi. – respondeu ele ao telefone.
- Já te disse o quanto eu te odeio, hoje?
- Calma, eu já estou chegando.
- Eu não disse porque não te odeio mais, agora quero te matar.
- Ei, relaxe, relaxe. Já estou te vendo.
E Goldenberg descia a rampa que o levaria de encontro a Dmitri e ao estádio.
- Não foi tão mal, foi? – perguntava o judeu.
- Tirando o fato de que eu estava sob esse sol de quarenta bons graus e você se atrasou deste jeito, no ar condicionado do metrô, bem...
- Mas eu demorei assim porque eu quase fui assaltado saindo do metrô!
- E eu, vestindo esse tênis de boiola que, além de tudo, é minúsculo? - Dmitri vestia um all star de couro branco, imundo, que um amigo trocara com ele por um par de havaianas. – E o cara que trocou comigo veste trinta e nove! Trinta e nove!
- É, pequeno, o cara. Vem cá, por que aqueles dingos estão olhando pra cá?
- Ah, enquanto você demorava, fiquei sem nada pra fazer, então eu comecei a imaginar a vida daqueles mendigos. Veja você, está vendo aquele que ainda tem alguns dentes? Ele é o João. João passou a vida inteira correndo atrás do mundo por sua mulher, até o dia em que percebeu que ela não valia a pena e a abandonou. O outro, aquele sem a mão esquerda, é o Bob. Oi, Bob! – Gritou Dmitri, enquanto ambos responderam – Bob é gente fina, cara.
- Imagino que seja, sim, mas vamos para a fila? Temos que comprar meu ingresso.
- Depois de atrasar meia hora, você vem me cobrar assiduidade?
Goldenberg não respondeu e ambos seguiram para o final da fila.
- Sabe, eu acho que vai demorar.
- Ah, vai me culpar pelo atraso, de novo?
- Bob é gente fina demais. Perdeu a mão nesse conflito na Faixa de Gaza. Era um homem sem ideais, mas está aleijado por causa de um. Estranho, né?
- Mas o Exército Brasileiro participa do conflito?
- Bob participa. Viva o Bob! –Gritava ele, novamente. Enquanto muitos dos presentes na fila urravam por Bob, outros mandavam Dmitri calar a boca. – Todos acham Bob gente fina.
- Todo Bob é gente fina.
A fila andava, repórteres filmavam. A ascensão do tricolor era motivo de espanto. A tal repórter de quadris belos e fartos e siliconados peitos tentou entrevistar Dmitri, mas ele disse que não dava entrevistas. Ele se achava um babaca. Pois ela também.
Dmitri se despediu de Goldenberg, esse com os ingressos em mãos, e voltou pra casa.
O telefone tocou. Era Sasha, um velho amigo.
- Oi, ligou lá pra tia? – perguntou Sasha.
- Não, eu to ficando sem dinheiro pra essas ligações.
- Mas liga pra inglesinha, lá.
- Alto lá, nunca liguei pra Louise! Ela sempre me ligou, coitada. Ligou tanto pra descobrir que foi coisa de momento, uma aventura de verão.
- Você é um babaca. Fez a pobre criança sofrer.
- A culpa não é minha. Quando a vi na praia, pensei que era mais uma garota do sul nas praias cariocas, mas ao falar com ela, percebi que a vaca loira era gringa, na verdade.
- Sempre pelo caminho mais difícil, né?
- No fácil, elas não são rosa. – disse Dmitri, rindo.
- Você é um babaca.
- Tá, e você vai ligar pra tia? Eu realmente não to com grana pra isso.
- Um dia você vai ver que não tem ninguém mais pra te ajudar. Você suga Deus e o mundo, só pra evitar um esforcinho a mais.
- Entenda bem, você sabe que eu posso ligar, eu sei que eu posso ligar, mas sou um cara tímido.
- O caralho! Você é um mão-de-vaca!
- Como quiser, eu não quero falar com ela. Nem a conheço!
- E você ainda engana algumas pessoas de bem que pensam que você vale algo.
- Isso se chama inteligência. – “Isso se chama sorte!”, retrucou Sasha – Ou isso.
Sasha desligou o telefone.
Dmitri pensava no dia que tinha se passado e já não sabia mais se havia como torná-lo bom. Não, não havia – concluiu. Sabia que Bob saberia viver uma vida melhor que a sua. Então serviu uma generosa dose de uísque e colocou dois cubos de gelo em seu copo e pôs- se a tentar voltar a escrever seu livro.
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