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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Insônia


Enquanto a noite dorme, eu sonho
Só no sonho o sono que sonho adormece a noite comigo

Enquanto a noite queima, eu águo
Verter, em mãos, delírios e ver – ter – irmãos de lírios

Enquanto a noite acorda, eu espero
Elo tenso pela fragilidade atada tem sua frágil idade delatada

Enquanto a noite dança, eu sinto
A noite, me abraçar, e a noite me abraçar

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Parapeitos e Ruínas


                Tec tec. Tec tec tec etec tectetec tectetetec tetec tec tec tectetectetectetetec tetetetetetetetetetec. Tec… Tec… Tec tec tectetetectetec tec tetec tec. Tec tetectetectetetecetetetetetetetectetec – MERDA! Merda, merda, merda! Não era nada disso! Nada disso!
                O estampido seco, forte e bruto na mesa não foi tão alto, mas foi tão agressivo que quase acordou Carmem. Esfregara os olhos e com dificuldade e cenho franzido observava Luka ter outro ataque ao interromper sua obra com falta de atenção, sono e inspiração, para logo então voltar a se perder no transe de seu torpor de sonhos.
                Não fumava, mal bebia e ainda assim pegara um copo limpo porém empoeirado para encher de Bourbon e acompanhar seu Lucky Strike. Infelizmente Luka passara tempo demais com Dmitri e agora tornara-se uma cópia barata sua, ainda que com talento indiscutivelmente superior ao original.
                Pousou o cigarro em sua boca para dar longas tragadas e passeou os dedos de sua mão esquerda testa acima, penteando seus – aos poucos rareando – cabelos negros e lisos, para então coçar um par de vezes sua nuca, dar a Carmem um olhar de testa franzida e sorriso de canto de boca daqueles de amor calculado, planejado, quase verdadeiro quase falso, que não diz nada demais, mas não diz nada de errado, só existe por existir num canto de quarto ao lado do abajur. Por amar esse amor de conhaque numa manhã chuvosa de sábado, decide sair sem avisar, sair sem querer, sair sem voltar talvez, talvez voltar, talvez, talvez outro dia quando ela não estiver mais lá. Talvez não devesse ter levado os cigarros.
                Um vulto subia as escadas que levavam ao andar de cima, mas não era um vulto tão importante. Nesse momento, só o lance de escadas que levava ao andar inferior e o que levava do andar inferior ao abaixo deste e assim por diante realmente importavam a Luka. O papel de parede floral velho e feio e desbotado não importava, a iluminação precária nos corredores e lances de escadas – ausente no lance de escadas entre o segundo e o primeiro andares – também não. De pouco em pouco Luka aproximava-se ao lado de fora do prédio. De frente à porta principal do edicífio – de ferro, com adornos dourados – Luka prontamente segurou a maçaneta, mas como que sentisse o que o esperava lá fora, como que esperasse o que o sentia lá fora, demorou a girá-la. Mas enfim girou-a.
                Um vento frio e seco cortou-o como um tablete de manteiga. Excitante para Luka. Gostava disso. Era não muito mais cedo que três da manhã e o céu era negro e limpo, sem estrelas, sem luar, sujo pelo brilho branco dos vários belos postes que iluminavam essa rua, boa rua bem habitada, com paralelepípedos no lugar de asfaltos, com árvores no lugar de pessoas, com solitude no lugar de solidão. O uísque caminhou Luka até uma ponte não muito longe e a fumaça de seus cigarros poderiam ser confundidas com a fumaça de sua respiração. Não via muito sentido no que fazia, nem no que vivia, nem no que escrevia, nem nas noites com Carmem, nem nas noites ou dias que passava sozinho mesmo bem acompanhado.
                Um último trago e com um toco de cigarro entre indicador e médio esquerdos olhou para o farol ao longe. Jogou não tão longe o toco de cigarro e riu, olhando com um olho esquerdo apertado e um olho direito fechado, seus polegar e indicador esquerdos agora espremendo a luz do farol. Sorriu como que satisfeito com seu trabalho bem feito. Jogou na água o copo vazio de sua mão direita e subiu no parapeito da ponte. A sensação era indescritível, toda a liberdade e toda a autonomia que o momento conferia. Toda a vida que ele finalmente sentia em seu corpo, em suas mãos, em seus dedos enquanto se esvaía, enquanto jorrava e pulsava e pulava por ele. Mas seu corpo não ia. Não pulava, não ia.
                Desceu do parapeito e acendeu outro cigarro e decidiu voltar para casa. Lembrou-se que não era possível se matar enquanto há uma obra-prima arruinada não amassada ainda presa a sua máquina de escrever.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

(Ensaio sobre) Cinza(s)


Ventava tanto. Muita gente abrigava-se naquela passarela aberta, no segundo piso. Carros passavam, logo abaixo, para-brisas trabalhavam lentos, debris se formavam ao centro da paisagem dos olhos desinteressados, fixos em lugar algum.
Eu olhava para qualquer lugar.
Céu cinza sobre nuvens cinza sobre prédios cinza com gente cinza e ela quieta me olhava. Sorria. Sorria um sorriso amarelo, amarelo, mas já me aquecia. Eu batia as cinzas só para desviar o olhar, para quebrar aquele momento insuportável, aquela saturação de ar nos meus pulmões, rubor em meu rosto, cinza todo o resto e eu não resistia e olhava novamente, apenas para vê-la sorrir e desviar o olhar.
Eu tragava para qualquer lugar.
As pessoas e os burburinhos, de mansinho se aquietavam pela minha falta de interesse e tornavam-se ruídos surdos, gente borrada, um blur no meio do nada, um momento particular. Meu momento. Talvez o dela, também, mas o meu momento.
Olhos cerrados, olho-a de lado e encontro seus olhos a me esperar.
Levanto para chegar à beira da passarela, passo meus olhos pelo cinza ao céu, pela chuva ao chão, pelas pessoas atravessando a rua com pressa – e elas riem, riem, riem e aproveitam um breve retorno aos dias de criança – e disfarço, mas penso nela e em como é estranho não ter outras coisas pelo que pensar. Bato as cinzas à beira e vejo o vento tragá-las consigo até longe, bem longe. Imagino que essa seja a liberdade – viver a mercê da corrente, sem escolha e sem rumo, sem culpa, sem fim. Apenas espera-se queimar e queimar bem rápido e deixar o vento trabalhar.
Nessas horas, principalmente ao ver novamente tais olhos negros com sorriso branco, agradeço por não ser livre. A escolha ainda é minha.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O dia e as ruas


Puxou um cigarro do bolso.
                Antônio caminhava com um vazio nos olhos, com pés em zigue-zague, espasmos de consciência que o faziam virar a cabeça e tentar capturar no olhar o pouco que por ele passou enquanto passeava sem aparente destino pela rua, enquanto perscrutava entre pessoas sem destino e sem consciência, apenas o vazio – um pouco nos olhos, outro tanto nos bolsos, e o resto no coração.
                Rua cheia, comércio cheio, céu cheio: estava nublado, embora fosse possível ver o brilho do Sol insistindo por trás das nuvens. Prédios chatos de cores chatas e janelas chatas, borradas e sujas, tão impessoais e cínicos, obedecendo a seu propósito. Nas ruas, mares de carros e gente, sempre em trânsito, sempre se vai a algum lugar, sempre. Nas calçadas, estandes diversos, com tal variedade jamais desafiada, todos eles iguais e todos oferecendo o que não se encontra em nenhum outro lugar.
                Colocou-o na boca.
                Lembrou-se da noite anterior e de como parecia impossível adormecer ao lado de alguém, principalmente dela. Principalmente dela e por isso foi embora, por isso vestiu a camisa e os sapatos, abriu a porta e foi embora, enganando a si mesmo ao dar o rabo do olho, ainda que por tão pouco tempo, para a porta agora fechada e então virar-se e partir.
                Os corredores são maltratados. Os corredores são, por definição, maltratados. Os quartos sempre ficam com a glória, sempre são cenários de história, diálogos marcantes de livros, clímax, anticlímax, finais. Metade de um romance em chave se dá em quartos, o escritor médio-amador usa quartos como lugares seguros onde se expõe o introspectivo.
                Acendeu-o.
                Mal pôde vê-lo chegar, apenas sentir seu ombro agora tocado, puxado com força. Ao virar-se pôde sentir um punho esmagar sua face, rasgar a pele que adornava sua bochecha esquerda, quebrar seu nariz e desperdiçar seu sangue. Talvez tenha sido mais violento, o impacto do ombro direito ao chão, mas ao menos teve tempo para rastejar para trás e recobrar o equilíbrio e também a visão. Ainda turva, pôde discernir sombras e aos poucos formas e viu seu rosto – Dmitri, um cigarro nos lábios, com um sorriso cínico. Sussurrou, com a boca imóvel, “Isso é por dormir com a Vanessa.”, deu as costas e foi embora.
                Rua cheia, comércio cheio, céu cheio: o céu aos poucos se abria, mas infelizmente o Sol já não brilhava tanto. Gente chata com jeitos chatos e caras chatas, borradas e sujas, tão impessoais e cínicas, obedecendo a seu propósito. Nas ruas, poucos corações, sempre em trânsito, sempre se deseja estar em outro lugar, sempre. Nas calçadas, gente diversa, ninguém igual a ninguém, mas todos iguais e todo lugar é o mesmo lugar.
                Tragou-o e tomou-o entre os dedos – em momento algum lhe passou pela cabeça olhar para trás.

domingo, 29 de maio de 2011

Blindagem

Um escritor deve ser por inteiro, amar por inteiro, sofrer por inteiro, perder por inteiro. Até hoje amei tudo que pude, sofri tudo que pude, sem dúvidas perdi tudo o que pude, também. Faz parte de ser escritor, também, saber amassar os papéis que levam ao fim prematuro da história, gozar de seus vícios enquanto esvazia sua mente e escrever um futuro novamente sem abrir os olhos, mesmo que o medo o faça titubear.

Quem vive blindado está morto por dentro. Vejo minha vida passar pelos meus olhos toda vez que morro e limpo os escombros de meu rosto sempre que renasço. Toco os céus e emudeço as estrelas para que nenhuma possa desferir lembranças do passado sobre minhas noites.