quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O Casamento e A Infância II

Luka foge da chuva torrencial - que bruscamente encontra seu lugar em meio ao sórdido calor tropical da segunda cidade mais quente do mundo - à procura de um abrigo. Encontra um breve e pequeno teto que protege um ponto de ônibus e assim ele espera sua condução. Faz sinal, pois logo seu ônibus se aproxima, e embarca.
Ao encaminhar-se a um dos assentos, Luka vê Dmitri, um amigo de longa data que não vê há tempos, sentado, solitário.
- Olhando a chuva riscar a janela? Você já foi menos romântico.
- Luka! Não, eu só estava pensando: os anos estão passando rápido e eu não estou ficando mais novo, você sabe como é isso? Não, você não sabe, pois ainda é jovem; eu, por outro lado, estou envelhecendo rápido demais. Talvez seja a vida. Você envelhece por conta dos seus cigarros, da sua bebida, mas já aprendi a conviver com isso: o que mais me desgasta, mesmo, é a vida.
- Dmitri, mas já parei de fumar. Aliás, você também não tinha parado de fumar?
- Você já deveria saber que é mais fácil você parar de fumar do que eu. Enfim, a grande questão é que eu já não deveria mais estar sozinho, pois já não tenho saco de ficar conhecendo tantas pessoas, entende? Eu deveria aceitar que não conheci o par ideal e conviver com a melhor opção que eu posso manter. Não posso envelhecer sozinho, o que seria de mim? Aliás, o que pensariam de mim?
- É realmente mais importante pra você o que os outros pensam do que seu bem estar?
- Até parece que você não me conhece. Pra ser sincero, já nem consigo mais escrever! Esse tempo inconstante me mata: ao sol de cinqüenta graus, eu morro, praticamente! Fico prostrado em minha cama, com uma garrafa de cerveja molhando minha garganta incessantemente. Nos dias de chuva, fico hipnotizado pelo riscar da janela, observando a corrida entre as gotas, apostando na que chegaria primeiro na sacada. Talvez eu não esteja inspirado, é que eu sinto medo, sabe?
- Esse cara não parece você, eu vou descer aqui.
- Pare com isso! Sou humano, ainda que não pareça algumas vezes...
- Como quando você bebe?
- Isso!
- Mas você bebe o tempo todo...
- A questão é que eu estou envelhecendo e não posso deixar de lado uma necessidade fisiológica minha: deixar meu legado.
- Mas você já tem dois livros publicados, o que mais você quer deixar pra humanidade? Nunca imaginei que você quisesse ser tão presente.
- Um filho, Luka, um filho! Entende? Já era tempo de deixar uma criança nesse mundo pra carregar o fardo do meu sangue, como um bom Buendía, entende?
- Lá vem você com essa intertextualidade.
- Vá à merda! Estou falando sério, preciso deixar meu legado, desenvolver os traumas. Meus pais me cagaram para este mundo, então talvez seja hora de gerar outro ser vivo que possa ser cagado e que possa contribuir com seus traumas para a arte contemporânea, mas, claro, sem perder o charme de alguma escola literária passada. Barroco, de preferência. Barroco...
- Hmm, meu ponto é aqui, Dmitri. Até logo.
- Luka, não vá! Luka! Luka!
E, neste momento, o ônibus volta a andar, deixando Luka para trás e Dmitri a voltar a apostar em uma gota em particular...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Difícil dizer...

Os limites da obsessão. Até onde é paixão, onde começa a dependência...
Há muitas formas de dependência...

Caixas de Cigarro

É difícil ter você longe de mim
Sinto falta de ter você em minhas mãos
Não, eu nunca disse que você é importante
Antes eu negava, até hoje eu nego

Ter você em meus lábios
Sabe os momentos de tensão?
Não sobreviveria sem você ao meu lado
Ou, pelo menos, nisso eu acreditava

Quantas noites eu passei acordado
Procurando você em tanta caixa de cigarro
Vazia?
Vazia?

sábado, 26 de dezembro de 2009

Os Labirintos e A Angústia

Eu poderia dizer que foi uma véspera de Natal, que foi numa véspera de Natal, mas era, na verdade, a véspera da véspera, um dia que não era importante pra quem não vivia um dia após o outro.
Enfim, já não importava e eu já estava ficando louco. Finalmente me encontrava mais livre, leve, solto, essas coisas para as quais damos valor, mas eu não me sentia melhor. Sentia a falta de algo, sentia algo fora de lugar. Pra ser sincero, é habitual eu me sentir deslocado, mas me sentir assim ainda que estando em estado de solitude para mim era novidade. Isso me dizia que eu não me sentia à vontade nem comigo, mesmo.
Para piorar, em meu lar havia uma tensão de dimensões para mim até então desconhecidas. Se até então eu descrevia certas tensões como sendo tão densas que poderiam ser cortadas por uma faca, assim o fazia sem saber que esta tensão é real. Meus pais, que nutriam um casamento sadio e com constantes brigas, mantinham uma Guerra Fria particular do mesmo lado do muro, sem ter onde, nem o que esconder. Entre os dois, eu.
Eu já não sabia como mantinha essa vida absurda e me livrar desta falta de lógica já havia passado pela minha cabeça por várias vezes, nessee ddia mesmo, mas eu sempre dou mais uma chance à vida, como o homem absurdo que sou.
Passei o dia escutando Donna, de Charlie Parker, Bitches Brew, de Miles Davis, e Stang’s Swang, de Stevie Ray Vaughan, na esperança de esquecer a Ana, menina dos labirintos de Humberto. Ana não me queria, fosse lá o porquê, e isso me entristecia. Gostava dela e já não me via com outra mulher, algo meio doentio, talvez, mas a verdade é essa. Já não sabia o que sentia, mas sua ausência me fez chorar. Decidi sair pra ver se melhorava, já sabendo que não teria sucesso, então liguei para Jackson e Goldenberg para marcar algo para oito horas. Saí e logo encontrei Jackson, na Vanhargem, e fomos juntos, então, comprar cigarros, ao passo que, ao voltar, comentei de um bar cuja cerveja era barata e para lá partimos.
Talvez esteja duro demais, mas já não tenho mais dinheiro para me embebedar de forma segura, então permaneci bêbado demais para estar sóbrio e sóbrio demais para perder a timidez. Ainda assim passamos algum tempo falando de nossa irmandade, de religião e de mulheres. Lembrei de Ana e bebi de uma forma descontrolada, sem saber o porquê, como tudo o que a envolve. Não havia motivo para essa paixão, mas Lobão já dizia “a paixão não tem nada a ver com a vontade”.
Esperamos o judeu chegar e nos encostamos por lá, na praça, para ver aquelas garotas de dezesseis, cheias de vida, desfilarem pela calçada, mas nem elas me animavam. Quando Goldenberg chegou, ficamos a ver as lolitas um pouco mais e entramos numa boate por lá. Não era nenhuma maravilha e pra falar a verdade foi um dos piores lugares em que pisei. Literalmente, até, pois o chão era grudento.
Lá, havia uma gata de camisa listrada que espantei, pois fui coagido a tentar a sorte com ela, mas meus dotes de retórica e manipulação, quando sóbrio, se reduzem a zero por conta da timidez. A menina-zebra tinha uma voluptuosa bunda cujo rebolado era demasiadamente sedutor, ao passo que uma noite com ela seria inesquecível, sem dúvidas.
Nós aproveitamos para dançar e então, confesso, me senti melhor. Talvez tenha expulsado toda a angústia, momentaneamente. Bem sabia que tal sentimento voltaria com meu próximo contato com Ana, mas, deste modo, ganhei tempo.
Depois de um tempo, a música eletrônica se tornou pagode e eu saí de lá, deixando Jackson e Goldenberg, sem paciência. Os meninos não me entenderam bem, mas aceitaram. Eu só queria voltar para casa e escrever sobre minha angústia.
E assim o fiz...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Um coração partido é a maior fonte de amor.

“-Não quero mais estar com você, simples assim.
-Mas o que houve? Sempre estivemos juntos, por que mudaria agora?”

A ordem nunca atrapalhou as lamúrias. O fim sempre foi igual ao início, pois a solidão é única.

Depois da tormenta...

... Vem a tormenta. A arte retorna como um grande tufão.
Vera e Estranhos, agora.

Vera (Verdade)

Marquises marcavam lugares por onde parei
Passaram-se bares por onde passei
E fiquei a ver a verdade mudar

Eu fiquei a ver a verdade fitar os seus olhos, Vera
Ela sorria sem ver, sem ver mal algum
Você me dizia que via a verdade e como as coisas eram
E elas não eram mais do que o normal


Descendo na Estação Cinelândia e subindo as escadas rolantes
Rolando de tudo à luz do neon das noites de sexta na Lapa

Eu fiquei a ver a verdade fitar os seus olhos, Vera
Você já me diz não haver mal nenhum
Prometi a você que veria a verdade e como as coisas eram
E elas se mostraram fora do comum

-------------------------------------------------------------------------------------

(Estranhos) Estranhos

Alinhando os lábios, sempre à procura
Do filtro do cigarro entre um trago e outro
Labirintos armados por uma rua escura
Que espera o dia nascer

Atrás das grades está minha língua
Querendo fugir para tua prisão
Camas desarrumadas numa manhã tão cinza
Servem de abrigo para a solidão

Alinhando os lábios à procura dos seus
Entre um cigarro e outro, mais um trago
Sóbrios amargos, estamos à procura de Deus
Esperando o dia morrer mais uma vez

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Última Gota

Dmitri estava apertado. Tanta vodka não faria bem a ninguém, mas isso nunca quis dizer muita coisa pra ele. No caminho, estava pensando na última gota de suor que correria pelo seu corpo. O Rio de Janeiro era uma cidade quente, não havia dúvidas. Seu suor o cobria como que derramasse um pouco de si sob a calçada, um pouco de vida que ficava pra trás e deixava sua marca molhada no cimento pelo qual passava. Dmitri refletia, enquanto perdia sua vida aos poucos, nas suas últimas gotas de suor.
Quando Dmitri acreditou que não poderia mais suportar o castigo do poderoso Sol, quando acreditou que não havia mais máculas para justificar uma punição cruel que só aqueles que viviam sob o Trópico de Capricórnio conheciam, neste momento, sentiu as primeiras gotas de orvalho que o abraçariam, trariam o carinho que tanto esperava e que cuidariam de seus ferimentos. Lembrou-se de quando era uma criança e dos dias em que olhava para o mundo pelo lado de dentro da janela, com o rabiscar d’água passeando pelo vidro enquanto os estalos se propagavam pelas sacadas e as poças se formavam nos buracos do asfalto. Memórias ternas de quando seu pai chegava atrasado e, ainda assim, com um sorriso no rosto, com a indisfarçável saudade que sentia da família. Foi quando se lembrou da saudade que sentia de seu pai. Velho, decrépito, estava morto, ainda que entre os vivos. Uma vida de decepções havia consumido seu coração e sua alma, o tornando irreconhecível. Seu rosto, agora destorcido, estava amargo. Suas mãos, enrugadas e descascadas, não se encontravam sem um cigarro entre seus dedos por mais de cinco minutos. Seus olhos, que brilhavam leves com a esperança e com os sonhos dos bem-aventurados, agora estavam opacos e pesados. Seu peito, que carregava vida, agora estava vazio. Dmitri entendia que uma vida absurda era mortal para quem tem o simples apreço pela vida, mas nunca foi capaz de entender que seu pai foi dono das escolhas que fez e que se era infeliz, este era apenas o retrato que um dia pintara. Ele, então, começou a culpar a sociedade como seu pai o fez, antes de perder sua sanidade. Dmitri, então, observava a última gota de chuva cair sobre seus lábios.
Foi então que se deu conta de que seu dia-a-dia era vazio e que sua vida não tinha sentido. Estudava para se tornar uma pessoa comum, com seu trabalho comum, que ganharia seu dinheiro comum. Nada contra a mediocridade, mas naquele momento Dmitri percebeu que não sabia o porquê de cada atitude sua. Não sabia o porquê de seu trabalho, o porquê de seu dinheiro, ou o porquê de sua vida. Babaquices filosóficas à parte, pondo o prático no prático e o real entre seus iguais, ele quis ser tanto, no entanto se tornou quase nada. Não era feliz com sua escolha, não compreendia que havia certo glamour na figura de um indigente, certo charme que só um John Doe teria. A indiferença lhe assustava, lhe era feia. Não entendia que os homens eram todos iguais, uns mais iguais que os outros, tão desiguais. Estava sentindo que a última gota se aproximava e que iria transbordar em breve.
Nem percebeu que havia chegado em casa, graças aos pensamentos que sem piedade bombardeavam sua vã consciência, e logo foi ao banheiro. Acalmava-se, aos poucos, quando, ao terminar, pensou em algo absurdo como sua vida. “A última gota sempre cai na cueca”, pensou Dmitri. Sua resposta, dada em voz alta, foi “Foda-se.”.
Dmitri vestiu-se rapidamente, sem balançar, lavou suas mãos e se dirigiu à sua máquina de escrever.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Untitled

Talvez seja surpresa pra uns, mas eu faço parte de uma irmandade. Era freqüente, em meus anos de mocidade. Não costumo falar sobre isso, até evito, mas estou citando isso porque é algo essencial para o que vou dizer a seguir.
Era uma e meia e eu saí de casa, para encontrar Fernando e, assim, irmos de encontro a um rapaz que estava sendo indicado por um tio nosso. Fê tinha o endereço e os telefones, mas sequer sabíamos o bairro onde o garoto morava. Era neto da antiga caseira do condomínio onde costumávamos atuar.
Cheguei as duas e quarenta no Flamengo, em frente ao prédio do Fê, e liguei duas vezes para ele, mas ninguém atendeu, logo decidi subir, pois esperar nem me parecia uma boa opção. Subi e fui recebido por alguém que não fazia idéia de quem era, enfim, ele estava no banho e eu deveria esperar e assim o fiz. Cochilei, no meio tempo, até que ele saiu do banho, descobrimos o bairro e nos pusemos a ir. A Vargem era grande e a viagem longa.
Pegamos um três oito dois na Praia de Botafogo, e passeamos pela orla. Copacabana, pela Atlântica, é tão linda. Vieira Souto, em Ipanema, nossa. O Sheraton passou por nós, quando passávamos pela Niemeyer. Ao passar pela Ponte da Joatinga, finalmente me dei conta de inúmeras memórias que já se perdiam após anos e anos. Época em que morava no Flamengo e cruzava essa ponte – que sempre me impressionou – quando ia com meus pais dar uma volta, desde que nasci até meus onze anos. Eu fiquei atordoado, no momento, pois de tanto, de tudo, me lembrei. De toda a arquitetura da ponte, dos túneis, o cheiro da maresia naquela ponte, do mar, das ilhas que fugiam para o horizonte. Saudosismo, por que me abraças?
De todo modo, seguimos sempre em frente, passando pela Ministro Ivan Lins, enfrentando um pouco do trânsito parado. Não desgosto de ficar na estrada, ou nas ruas, dentro de uma condução, esperando o destino chegar. Pra ser sincero, adoro, mas se há alguma coisa que eu detesto é engarrafamento. Não suporto e explodiria todos os carros, se pudesse, ou dirigiria um desses Monster Trucks, para passar por cima de cada um dos carros que quisesse desafiar a força incessante do ímpeto natural de seguir em frente.
Passado o engarrafamento, continuamos. Já havia se passado uma hora de viagem e ainda estávamos no Recreio. Fê havia ligado para a Tia e ela nos deu uma referência, para que pudéssemos usar na hora certa de saltar do ônibus. A trocadora desconhecia a referência e ficou por isso mesmo. Decidimos esperar. Ao passar por Vargem Pequena, pedimos ajuda a outra senhora que nos apontou com precisão o ponto no qual deveríamos descer e onde a rua estaria ao descermos. Descemos e resolvemos dar uma mijada no mato. Apontei meu pênis para Fê e ameacei mijar nele, mas minha razão falou mais alto e eu mirei numa árvore. Enfim fomos rumo a tal rua.
Um dado curioso sobre a rua é que o número das casas que nela se encontravam se embaralhava. Não havia um lado específico para casas de número ímpar ou par. E tava tudo tão estranho, havia uma neblina. Fê e eu brincamos que estávamos em Silent Hill e aquela rua não fazia sentido, até porque, no fundo, não fazia. Ela desembocava numa pracinha onde não havia essa casa. E aí? Bem, pedimos arrego e fomos a um bar perguntar aos donos do estabelecimento sobre a tal casa. Eles nos disseram que não havia tal casa lá - o que reforçava a idéia de Fê que estávamos em Silent Hill -, mas que havia outras ruas homônimas pela região, uma mais ao fim da estrada, outra lá atrás, no Recreio, no Terreirão, mais especificamente. Xinguei Deus, o mundo e o Fê e me mandei de lá com ele. Pegamos um setecentos e três e paramos após passarmos o Recreio Shopping e lá pedimos informação a um feirante que ficava por lá. Ele ficou passando um papo estranho, dizendo saber onde fica a tal rua, que mora lá perto, ia levar a gente lá, enfim, tudo bem. O cara parecia ser prestativo. O papo só ficou estranho quando ele disse que não tinha certeza se aquela era a rua, pois vivia lá de aluguel e não sabia o nome da rua onde morava. AÍ eu me preocupei.
Quando comecei a escrever meu romance, citei Kerouac ao dizer que num país de terceiro mundo como o Brasil, onde o desigual mora ao lado, viajávamos ao México todo dia da semana. Pois bem, sempre vi a pobreza de longe, seja em livros, em televisões, em obras sociais relativamente próximas aos locais, ou no trajeto de volta para casa, mas nunca estive tão perto, nunca pisei num chão revestido pelas lágrimas e pelo suor do trabalho. E ao lado, um Shopping Center bem estruturado, a menos de cinco quilômetros. Me fez pensar, isso.
Voltando, depois de nos perdermos do cara e nos perdermos no bairro, procuramos a tal rua até que achamos a rua e a casa. A casa da Tia era uma casa bem bacana e destoava das demais do bairro. Era bem tratada e aconchegante e eu me senti melhor ao saber que ela e sua família moravam bem, lá. Conversamos por muito tempo sobre pessoas. Sobre as pessoas que passaram pela irmandade. Pelos fatos, pelas idéias que por ali passaram, também. Foi gostoso, foi um tipo de saudosismo próximo, pois eram saudades de pessoas com quem convivo. Enfim, logo mais fizemos o que deveria ser feito, agradecemos a hospitalidade e demos o fora. Pegamos um ônibus que passava pela orla e voltamos pro Flamengo. No meio do trajeto, em algum lugar do Recreio, tive uma visão. Na visão, Dylan me dizia para eu não me preocupar, apenas ser feliz e por cinco longos minutos eu o ouvi assobiar, até que adormeci. Adormeci pensando no dia em que voltaria para o meu Flamengo – bairro, claro, pois não renuncio o meu tricolor de forma alguma -, para, novamente, sentar à orla e fumar enquanto as estrelas me observariam. Ao chegarmos ao Parque Guinle, avistei um quatro três quatro de longe e rapidamente me despedi do Fê, para poder alcançá-lo. Dei um sprint até chegar ao Princesa, na Senador Vergueiro, pois o puto do motorista não parava pra mim. Eram nove e tanta da noite, mas não tinha me cansado até aquela hora. Talvez isso devesse significar que eu deveria fumar menos. De todo modo, sentado num banco do quatro três quatro, já poderia me considerar em casa. Na verdade já estava em casa e a noite já estava terminando. E terminava a breve noite de terça-feira, junto ao longo dia que a precedeu.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Ode a Bob

Numa tarde de sol, Dmitri esperava Goldenberg, sob o sol de uma da tarde, em pleno horário de verão.
- Oi. – respondeu ele ao telefone.
- Já te disse o quanto eu te odeio, hoje?
- Calma, eu já estou chegando.
- Eu não disse porque não te odeio mais, agora quero te matar.
- Ei, relaxe, relaxe. Já estou te vendo.
E Goldenberg descia a rampa que o levaria de encontro a Dmitri e ao estádio.
- Não foi tão mal, foi? – perguntava o judeu.
- Tirando o fato de que eu estava sob esse sol de quarenta bons graus e você se atrasou deste jeito, no ar condicionado do metrô, bem...
- Mas eu demorei assim porque eu quase fui assaltado saindo do metrô!
- E eu, vestindo esse tênis de boiola que, além de tudo, é minúsculo? - Dmitri vestia um all star de couro branco, imundo, que um amigo trocara com ele por um par de havaianas. – E o cara que trocou comigo veste trinta e nove! Trinta e nove!
- É, pequeno, o cara. Vem cá, por que aqueles dingos estão olhando pra cá?
- Ah, enquanto você demorava, fiquei sem nada pra fazer, então eu comecei a imaginar a vida daqueles mendigos. Veja você, está vendo aquele que ainda tem alguns dentes? Ele é o João. João passou a vida inteira correndo atrás do mundo por sua mulher, até o dia em que percebeu que ela não valia a pena e a abandonou. O outro, aquele sem a mão esquerda, é o Bob. Oi, Bob! – Gritou Dmitri, enquanto ambos responderam – Bob é gente fina, cara.
- Imagino que seja, sim, mas vamos para a fila? Temos que comprar meu ingresso.
- Depois de atrasar meia hora, você vem me cobrar assiduidade?
Goldenberg não respondeu e ambos seguiram para o final da fila.
- Sabe, eu acho que vai demorar.
- Ah, vai me culpar pelo atraso, de novo?
- Bob é gente fina demais. Perdeu a mão nesse conflito na Faixa de Gaza. Era um homem sem ideais, mas está aleijado por causa de um. Estranho, né?
- Mas o Exército Brasileiro participa do conflito?
- Bob participa. Viva o Bob! –Gritava ele, novamente. Enquanto muitos dos presentes na fila urravam por Bob, outros mandavam Dmitri calar a boca. – Todos acham Bob gente fina.
- Todo Bob é gente fina.
A fila andava, repórteres filmavam. A ascensão do tricolor era motivo de espanto. A tal repórter de quadris belos e fartos e siliconados peitos tentou entrevistar Dmitri, mas ele disse que não dava entrevistas. Ele se achava um babaca. Pois ela também.
Dmitri se despediu de Goldenberg, esse com os ingressos em mãos, e voltou pra casa.

O telefone tocou. Era Sasha, um velho amigo.
- Oi, ligou lá pra tia? – perguntou Sasha.
- Não, eu to ficando sem dinheiro pra essas ligações.
- Mas liga pra inglesinha, lá.
- Alto lá, nunca liguei pra Louise! Ela sempre me ligou, coitada. Ligou tanto pra descobrir que foi coisa de momento, uma aventura de verão.
- Você é um babaca. Fez a pobre criança sofrer.
- A culpa não é minha. Quando a vi na praia, pensei que era mais uma garota do sul nas praias cariocas, mas ao falar com ela, percebi que a vaca loira era gringa, na verdade.
- Sempre pelo caminho mais difícil, né?
- No fácil, elas não são rosa. – disse Dmitri, rindo.
- Você é um babaca.
- Tá, e você vai ligar pra tia? Eu realmente não to com grana pra isso.
- Um dia você vai ver que não tem ninguém mais pra te ajudar. Você suga Deus e o mundo, só pra evitar um esforcinho a mais.
- Entenda bem, você sabe que eu posso ligar, eu sei que eu posso ligar, mas sou um cara tímido.
- O caralho! Você é um mão-de-vaca!
- Como quiser, eu não quero falar com ela. Nem a conheço!
- E você ainda engana algumas pessoas de bem que pensam que você vale algo.
- Isso se chama inteligência. – “Isso se chama sorte!”, retrucou Sasha – Ou isso.
Sasha desligou o telefone.
Dmitri pensava no dia que tinha se passado e já não sabia mais se havia como torná-lo bom. Não, não havia – concluiu. Sabia que Bob saberia viver uma vida melhor que a sua. Então serviu uma generosa dose de uísque e colocou dois cubos de gelo em seu copo e pôs- se a tentar voltar a escrever seu livro.

domingo, 25 de outubro de 2009

A Espera - 2

Se eu contasse as minhas intensas noites de sábado a vocês, provavelmente gastaria meses ao citar detalhes atrás de detalhes, mas, por hora, me ocuparei por contar algo que testemunhei numa noite de sábado recente...
Acabara de acordar às dez e meia da noite de sábado, após um breve cochilo e decidi por matar o resto do tempo que me faltava, pois nada havia a se fazer naquela noite onde muitos já estavam compromissados, outros duros, outros nem na minha querida cidade estavam. De todo modo, recebi uma ligação e a voz que perguntava por mim não me era estranha, mas soava como um desses malditos operadores de tele-marketing – nada contra seus trabalhos, pois honestos e esforçados, porém demasiada-mente chatos, eram – e me dei conta de que era Jackson e ele tinha a parada certa para hoje à noite. Estava meio sonolento, ainda, e conversava com uma amiga minha que estava em sua cidade natal, logo, não levei fé na saída, por hora, mas logo topei. Mandei Goldenberg sair de suas sandálias sujas e gastas e roupas amassadas de ficar em casa e vir comigo. Relutante, pois duro, no início, logo cedendo, aceitou. Combinamos de nos encontrarmos em frente a um Shopping Center perto do local e logo fomos sabendo que nossa noite começaria quando a de muitos estaria por terminar – ao soar da meia noite.
Acompanhei o horizonte de minha rua, por onde passaria um ônibus que me deixaria praticamente em frente ao tal ponto de encontro, mas ele decidiu não passar. Decidiu, com toda a sua veemência e arrogância, por não passar tão tarde. Redirecionei o trajeto de minha ida, andando por alguns quarteirões até chegar a um ponto por onde passam dois ônibus que me deixariam lá. A espera foi longa e muitos dos ônibus que jamais passam – muito menos em bandos – passaram com rapidez avassaladora, mas, ao menos, foi uma espera finita. Neste ônibus haveria vários tipos que compõem a noite carioca como respeitáveis senhores boêmios, boys bem vestidos escutando um batidão, jovens bêbados e mal educados, além de mulheres bonitas e arrumadas, prontas para a ação. “Ah, a noite carioca!”, exclamei, eu. Estava novamente com os olhos na lua e com o sorriso na cara, atravessando a vida que transitava ao meu redor, como uma brisa suave atravessaria as folhas de uma árvore.
Ao chegar no Shopping, me senti menos vivo, pois me encontrava perto de gente cansada, fatigada, que havia perdido seu joie de vivre e isso me incomodava. Acendi meu cigarro e fiquei por observar a vazia multidão e suas manias. Ao passo que me recostei em um poste, uma jovem gatinha com seus prováveis dezesseis anos e dourados cabelos longos sentou próximo a mim. Flertava, com seus olhos castanhos e maquiagem em excesso, típica das ingênuas e inseguras garotas jovens. Talvez por timidez, ou bom senso, optei por não fazer nada, pois, por sua idade e condição solitária, estaria lá esperando a carona do pai ou de seu namoradinho mais velho com carteira de motorista. Uma noite de amor e luxúria se passou pela minha cabeça enquanto imaginava seus lindos e macios tornozelos bronzeados tocarem gentilmente suas orelhas envoltas por seus cabelos dourados, mas era apenas uma noite breve em uma cabeça fodida. Além do mais, eu acertei. Não vi quem estava no carro, mas ela se sentou no banco do carona e o carro deslizou para longe do alcance da minha vista.
Quis acender outro cigarro, mas dentre as pessoas próximas e presentes – cada vez mais raras – ninguém fumava, ou tinha fósforos ou isqueiro. Foi quando eu perguntei a um jovem que trabalhava com táxis se ele tinha algo para meu cigarro e ele me cedeu seu isqueiro. Agradeci e rimos, contando sobre casos e acasos nossos, ao procurar fogo para nossos cigarros. O rapaz tinha um sorriso delicado e singelo e olhos humildes e, sem dúvidas, tinha o joie de vivre que faltava aos demais ali presentes. Em certo momento, me retirei para aproveitar a solidão da espera.
Foi quando me deparei com algo que me deixou perplexo por alguns momentos. Talvez fossem os cigarros fumados rapidamente, talvez fosse o calor recente das noites regidas pelo horário de verão, mas eu suava e muito! Então reparei, ao olhar para o céu, que naquele prédio razoavelmente grande em frente ao Shopping havia certa solidão.
Estava por ver algumas janelas aglomeradas e unidas por suas luzes acesas, cujos donos residiam esperando a febre do calor, ou, quem sabe, o delírio febril da noite licenciosa de sábado, passar, mas um apartamento chamou minha atenção. Este janela, em especial, se localizava no último andar deste razoavelmente grande prédio e, como as outras, tinha sua luz acesa. O que havia de tão especial nesta janela, para que eu me sentisse tão mal ao olhar para ela? O que despertava esta pena em mim? Era uma janela como todas as outras, mas, diferente delas, estava solitária, andares acima das demais que iluminavam umas às outras como pessoas curtindo a solidão em conjunto, e, além do mais, sua luz trepidava, ao girar das hélices do ventilador de teto. Por algum motivo, esta janela me comoveu, pois senti pelas pessoas que ali estavam uma grande vontade de amá-los. Amá-los e tirá-los da amarga condição de sofredores, de carentes e solitários amantes que jamais seriam mais que náufragos vizinhos, cujas ilhas não se tocariam. Imaginei se seriam eles felizes e se em algum dia eu me deixaria ser assim. Por algum momento, eu realmente acreditei que sim, mas, por sorte, antes de chegar a sentir pena de mim mesmo, queimei meus dedos com meu cigarro, que já havia acabado e, dele, só me restava o filtro. Vi que já havia passado de meia noite e quinze e decidi ligar para Goldenberg e Jackson. No momento em que tirei meu celular do bolso e comecei a catar o número de Jackson na agenda, Goldenberg me assusta, ao me surpreender pelas costas. Rimos e, logo, a espera havia terminado.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Nunca, mas nunca mais...

Estou há um tempo sem postar nada.
Esse post, esse poema, é sobre o atraso de vida que é negar a si mesmo o que se sabe que quer.
Esse é um post sincero, como muitos outros.
Esse poema é Nunca Mais

Nunca Mais

Do sol que se põe ao sol que nasce
A face com a qual me olhas
Me olha como se não desejasse

Da noite mais triste à mais triste solidão
A mão com a qual me afagas
Apague as luzes e me deixe só, então

Um cruel "Boa noite", um breve "Até mais"
Segundos presos no tempo
Que, segundo você, não se repetirão
Nunca mais