Uma noite como outra qualquer, daquelas nas quais se bebe um copo de uísque e entre um piscar e outro mais longos se nota um ou outro alguém que passa pela escura e cinza rua, cujas árvores se expressam opacas em gradiente do cinza ao verde. Os postes não iluminam mais que a lua, com suas luzes âmbar quase nuas em seus brilhos quase turvos, frágeis como os olhos aguados da mulher aos prantos no iphone capa branca, lábios róseos e unhas roídas. Uma entre várias, infinitas. Várias cadeiras vazias, iguais, singulares em plural, dando vezes a ocupadas tão logo as ruas cheias dão espaço às vazias.
Poças dão vez às gotas que não tão poucas se formam rios – as ruas sujas desaparecem conforme o ar se torna frio – e os bares enchem seguindo os copos que pouco a pouco se esvaziam.
A moça loira de rosto inchado e olhos vermelhos olhou pro lado e viu um espelho no vidro do carro – tão logo pôde se distraiu: um copo a mais de uísque, por favor.
Nem os copos são únicos.
Nem ruas, nem chuvas, nem brilhos quase turvos de postes de linhas duras em cenários tristes, escuros.
Quando os copos caem, tornam-se singulares e plurais – todo caco é copo.
Pessoas também.
terça-feira, 19 de abril de 2016
terça-feira, 22 de março de 2016
O sanduíche mais simples
Não precisava de muito para
ser feliz. Acordava metade de seus dias na casa dela, na cama dela – na maioria
de ressaca – e olhava aquele rosto frágil e belo e adormecido em seu ombro
direito, aqueles longos e cheios cabelos negros espalhando-se de seu pescoço à
ponta semi-rija de seu pênis caído entre suas pernas. Aquelas pernas trançavam
as suas e aqueles braços lhe tomavam posse. A respiração era aquela ofegante
daqueles de sono irrequieto e o quarto estava sempre escuro. Por muito tempo a
insônia lhe abandonou, mas das últimas vezes lhe fez companhia. O aparelho
condicionador voltara a lhe incomodar o nariz ao acordar e já não era a mesma
coisa acordar às quatro naquele quarto.
Levantava e desligava o
aparelho e abria as cortinas. Lembrava-se de sua nudez, mas àquela hora não se
faria incômodo. Abria as janelas e olhava o céu púrpuro incandescido pela
iluminação dos diversos prédios vizinhos, criando o contraste do neon contra o
escuro. Ventava, mas era tão gostoso. Buscou na mesa de cabeceira seu Camel e seu
isqueiro de prata, ambos pela metade, apoiou seus cotovelos no parapeito e
acendeu. Fechou os olhos e sentiu o primeiro trago do dia preencher cada
alvéolo em seus pulmões. Abriu os olhos e esfregou a remela formada por uma boa
noite de sono – e dessa vez nem acordara tão enjoado, só bebera quatro doses na
noite anterior. Olhou para sua máquina de escrever portátil e sentiu vergonha
de si mesmo. Sempre que dormia fora, carregava-a e havia meses que não escrevia
nada. Estava feliz. Diziam que por isso era incapaz de escrever. Jogou a guimba
pela janela e viu-a espatifar-se de um canto a outro do pequeno pátio interno
do condomínio, o brilho do fogo ainda desperto no cigarro ziguezagueando entre
os quiques, até finalmente apagar-se.
Afastou-se da janela e tateou
o chão da sala – esta mal iluminada – para encontrar sua calça jogada, então
levantando e vestindo-a. Faria o café, não fosse a preguiça. Droga!, por que
nâo fazer o café? Ela acorda às oito, mas é só fazer outro depois, de novo. Mas
é uma pena que nesta casa não haja nenhuma bebida – pensou. – Realmente me faz
falta em momentos como esse. Vestiu sua camiseta e desceu, levando sua chave da
casa dela, para buscar alguma bebida na rua. A essa hora nenhum dos poucos
lugares abertos vendia bebida, exceto por – fora do cardápio – uma lanchonete
de esquina de uma rua paralela. É uma caminhada rápida, pensou.
Na metade do caminho para o
fim da rua, cruzou com um morador de rua corpulento, bem idoso, maltrapilho
como de costume, porém era notável como suas roupas conservavam, senão no
aspecto, a aparência de terem sido caras alguma vez há muitos anos.
- Olá, meu jovem, tudo bem com
o senhor? Voltando da igreja? – perguntou
o morador de rua.
- Boa noite. Não, não, estou
indo comprar algo para beber. O senhor me acompanha?
- Não bebo há muitos anos, meu
filho – mentiu, pois seu hálito entregava a fome e a embriaguez disfarçada na
voz. – Mas devo lhe pedir ajuda. Estou muito cansado, durmo na rua já há três
semanas e meus pés já estão muito cansados. Será que o senhor não poderia me
pagar uma diária em algum hotel da região? Uma noite no quarto mais simples e é
tudo que lhe peço. Estou muito cansado – disse entre tosses.
- Não sei, não trouxe muito
dinheiro. Não posso lhe pagar algo para comer?
- Não me ajuda como uma noite
em uma cama, mas pode ser. Podemos ir a uma lanchonete lá na frente? Peço o
sanduíche mais barato, o mais simples, e isso já me seria ótimo – sua voz era
calma, grave e pausada, digna de um senhor de idade.
- Pode pedir mais que isso e
eu já ia àquela lanchonete. Beba comigo ao chegar lá.
- Mas lá vende bebida?
Alcoólica, quero dizer? – perguntou surpreso.
- Sim, mas tratemos de andar.
E caminharam pela rua quase
deserta, cheia de porteiros de hotel, casais turistas – tanto os apaixonados,
como os que tentavam salvar suas relações frágeis e antigas – e os poucos
trôpegos ébrios naturais das manhãs de quarta-feira.
Enfim chegaram, a passos
lentos de quatro pés inchados, à lanchonete. O velho fez seu pedido – o mais
simples, como prometera – e o rapaz pediu duas doses de conhaque barato, a
única bebida que a lanchonete dispusera a vender clandestinamente. Bebemos e
Dmitri pediu mais duas doses para viagem, pagando logo em seguida e deixando o
velho a lhe agradecer e a comer seu sanduíche.
Voltou ao apartamento sem
fazer barulho, truque que aprendera em seus anos de adolescente chegando bêbado
na casa de seus pais pela madrugada. Pôs água a ferver e bebeu meia dose da
bebida vagabunda enquanto isso. Ao fim do processo, despejou a água no pó e fez
então o café a beber. Forte, pensou, como sempre. Mas faltava o conhaque – e
logo o misturou. Após duas xícaras, ligou o abajur, encontrou seu livro debaixo
da mesa de centro e começou a ler. Poucos impressionaram-no tanto como Huxley e
decerto mesmo Huxley seria incapaz de impressioná-lo novamente após A Ilha. Com
o tempo viria a ter sono e nesses momentos levantar e fumar na janela seria a
solução.
Viu o céu clarear, o segundo
copo esvaziar e sua mulher despertar. Primeiro os olhos, depois a coluna e num
rápido movimento os braços e as pernas. Tremiam conforme esticavam-se e um
sorriso formava-se conforme ganhava-se consciência. Insônia de novo, bebê,
perguntou. Mas claro que sim, Dmitri respondeu. Você não fumou na janela,
fumou? A casa está fedendo! Dmitri então fechou seu livro e caminhou até a
cama. Beijou-a. Prometo compensar, disse enquanto tirava a camiseta. Era
engraçado, pensava, pois momentos como esse, em dias como esse, nos quais o céu
ainda brilhava magenta, lembrava-se de Um País Estranho de Hemingway,
lembrava-se de como entrava em qualquer outro lugar ao entrar nela. Não tinham
mais um canto para si, tinham o mundo inteiro e nada mais, não havia mais
ninguém. É muito grande pra mim, ela dizia, e de fato era o que ele sentia
também. Ao terminar, o arfar diminuía e o céu perdia o brilho do amanhecer e
tomava o opaco tom azulado da manhã já formada. Eu faço o café, disse ele. Para
variar, zombou Amélie.
Já quase atrasado, tomou seu
café e seu banho, deixando Amélie para se arrumar e despedindo-se com um beijo.
Da casa dela a seu trabalho não eram mais de vinte minutos a caminhar e decidiu
ir. Trabalhava em uma agência de publicidade no topo de um prédio comercial na
zona sul do Rio de Janeiro. Era mais uma manhã difícil, como outra qualquer.
Principalmente ao lembrar que não era feliz. Não com seu trabalho, não com sua
vida, muito menos com seus vícios. Um dia de trabalho não era o suficiente para
levar paz a sua mente.
Às sete saiu e foi a um bar
encontrar-se com alguns amigos. Eram como ele, pensou. Todos tinham olhares
vazios cheios de brilho, típicos de quem se rende à vileza do álcool e das
drogas. Dmitri lembrava-se das noites de recuperação nas reuniões em que
frequentava, lembrava-se da força que tinha, da serenidade que não tinha e da
sabedoria que lhe escapava. Pensou no mundo doente em que habitava, no qual as
pessoas tinham vergonha de viver e cujo esporte era o de disfarçar a repulsa à
vida com celebrações.
Um rapaz disse uma vez que
Dmitri não conseguia escrever justamente por estar feliz. Para que fosse capaz
de escrever, era necessário estar triste e magoado, humilhado, derrotado pelo
dia-a-dia que feroz consome toda fagulha da energia que aqueles que pensam
demais são capazes de criar.
Naquela noite, lá pelas onze,
o bar vazio e os copos cheios – os copos daqueles que ficam, daqueles sem
brilho – o céu sem estrelas como só a cidade grande de prédios de lâmpadas
amarelas que nunca apagam, nem mesmo às cinco da manhã, é capaz de convidar,
naquela noite, naquela escuridão, Dmitri lembrou-se que não precisava de muito
para ser feliz.
Então despediu-se dos demais,
pediu um táxi para voltar para sua casa e pôs-se a escrever.
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Cigarros, um beijo e Nadia
Viria então a conhecê-la.
Parecia bonita nas fotos, bem como falavam sobre ela. Olhos castanhos, claros,
expressivos, emoldurando um rosto delicado, de maçãs fortes e boca e nariz
finos. Seu rosto inteiro brilhava e dançava com seu sorriso. Seu sorriso arrancava
um sorriso dele. Ele não costumava mostrar os dentes, não assim tão fácil – no
entanto sorria com ela a cada sorriso fácil que ela dava.
Ela não gostava de cigarros,
ele fumava. E não fumou os cigarros da espera, antes de encontrá-la.
Planejavam ir ao cinema, mas
ela não gostava de planos. O improviso lhe vestia melhor. A sessão para a qual
haviam acordado em ir havia esgotado e teriam de improvisar. Ele ganhava a vida
com planejamento – gostava disso.
Dmitri e Nadia decidiram vagar
pelo Rio de Janeiro à procura de algo melhor – no caso, andar pela Bartolomeu
Mitre, procurando um lugar para comer. Nadia contou sobre seu passado, sobre
seus relacionamentos antigos, pouco a pouco mostrando o porquê de seu
comportamento arredio. Dmitri gostava de gatos.
Encontraram uma hamburgueria
em um shopping no Leblon e lá ficaram e discutiram sobre muito até ficarem
cansados e com sono, após comerem um par de hambúrgueres. Ele acompanhá-la-ia
até em casa, na Gávea.
No caminho falaram sobre a
sublimidade do sofrimento, de seus pais, da vida, dos filmes, dos livros e em
uma esquina aconteceu. Dmitri sabia que deveria esperar, Nadia sentia que não
deveria fazê-lo. Ela não estava pronta para já se envolver fisicamente com
outra pessoa e ele sabia. Os dois estavam cometendo um erro em apressar as
coisas. Os dois sabiam. Aconteceu.
Foi apenas um beijo. Nadia
puxou Dmitri da esquina – ficaram de frente. Ele pôs seus braços à cintura
dela. Nadia deu dois passos ao encontro de Dmitri que, por sua vez, deu outro
passo. Quatro olhos tremiam. Quatro olhos castanho-claros tremiam e as bocas
inseguras se aproximaram e o segundo final que as separava durou uma noite
inteira. Quando colaram, assim o fizeram com culpa.
Nadia era arisca e arredia e Dmitri,
mesmo tendo experiência com gatos, foi incapaz de não se deixar arranhar.
Parecia inevitável que este gato fugisse.
Tentavam fingir que isto não
mudaria nada, mas certamente mudou. Deixou-a em casa e despediu-se sem um
beijo, tentando consertar as coisas.
Esperando por um táxi que o
levaria para casa, Dmitri finalmente fumou.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Catarina e os maços de coração
A
dois cigarros de finalmente entender o que havia dado de errado entre Catarina
e ele, decidiu parar de fumar. A vida de dúvidas era mais fácil e enquanto
fumava a morte tornava-se mais certa. Bebeu mais um gole de uísque e pôs-se a
ruborizar.
Dois
dedos de sua mão direita massageavam sua têmpora e sua mão esquerda levava o
copo. Mais poucos passos e atravessaria o corredor estreito e longo de carpete
vermelho com detalhes de dourado, aparador de madeira com abajur de madeira
escura e luz quente, quadro de avó que nunca conhecera e portas de quarto que
nunca abrira. Mais alguns poucos passos e chegaria à poltrona na qual pegaria
no sono até a manhã seguinte, quando seria acompanhado por dores de cabeça,
velhas amigas.
Chegara
ao sofá café de couro e decidira pausar por lá. Catarina nunca fora complicada,
pensara. Não fora complexa, não dava trabalho, entendia meus erros, conhecia
meus vícios e perdoava meus pecados. Foi perfeita, Catarina. Foi, não deixou de
ser mesmo ao me abandonar.
O
silêncio era a casa. Todo o resto rugia e quebrava como ondas, como revolta,
como mar. Dmitri era fã de touradas e morria por elas. Sempre soube que nem
todas as noites eram do toureiro. Torcia pelas noites do touro. Agora que a
noite chegou, não sabia se poderia aguentá-la.
Com
esforço arrastou-se pelo sofá até chegar a seu braço, derramando goles pelo
tapete azul cruzou o caminho entre o sofá e a poltrona engatinhando, protegendo-se
dos perigos que zuniam na zona de guerra que era o campo de memórias que nutria
no cômodo.
Mais
uma vez bêbado. Era um bêbado, Dmitri. Catarina soube e Dmitri soube disso.
Agora sentado na poltrona café de couro, bebeu o resto de seu uísque e
descansou o copo ao chão, quebrando-o com a queda. Alcançou um cigarro de seu
maço e acendeu-o. Estava a um cigarro de entender o que havia de errado com
ele.
E
adormeceu. O cigarro se desfazia entre seus dedos até queimá-los, acordando-o.
Bêbado, tomou a decisão que nunca fora capaz de tomar enquanto sóbrio. Morto,
tomou a decisão que não tomara enquanto vivo.
Tirou
o maço de cigarros do bolso da camisa para dar mais espaço ao coração.
E
morreu.
Até
a manhã seguinte, quando viveu ao acordar. Viveu o luto de sua própria morte
até morrer novamente na noite seguinte. E assim tem feito desde que Catarina se
foi.
domingo, 2 de junho de 2013
Despedida às seis da manhã
E
então a olhou. Distanciou seu rosto do dela e abriu seus olhos e olhou-a como
nunca antes. Não sabia se voltaria a ver aqueles olhos negros tão vazios do
vazio que se vê nos demais olhos, do vazio que via em seu próprio olho.
Amava-a.
Do momento em que a conheceu,
soube, mas nunca soubera se voltaria a vê-la. Naquele momento não seria
diferente. Aquele momento era apenas o nascer do cielo rojo, o nascer do sol, era um beijo de despedida no portão
sobre aquele descampado, tudo aquilo que ele não conhecia e que ela tampouco,
todo aquele lugar que era novo para ambos – tanto o descampado quanto o amor –
toda aquela matiz fulgurante, aquele inferno vermelho ao horizonte dando vez ao
rosa quente e terno rodeando o sol e que levava a um céu azul claro sem nuvens
lá no alto e tudo isso, todas essas cores desconcertavam os dois. Beijaram-se
novamente e foi às seis da manhã e não teria como ter sido em outra hora, não
“era” algo que acontecia às seis – “foi”, aliás, com um devido maiúsculo, “Foi”.
Disseram adeus e declararam
outra vez seus votos mútuos de amor, selando-os com um beijo. Ele deu um passo
para trás, deu um passo atrás do outro e não perdeu-a de vista, acendendo um
cigarro enquanto distanciava-se sorrindo.
Quando ela não era mais que um
ponto distante para seus olhos, pôde chorar sem incomodar-se em ser notado por
ela. Não queria que ela pensasse que ele duvidaria se seria ela, não, jamais.
Não havia dúvida. Nunca houve. Só é difícil saber se seremos para sempre os
mesmos. Provavelmente a veria de novo, mas já não seria ele.
Fazia frio às seis da manhã,
ambos longe de casa. Estiveram tão perto de casa quando a meia-noite cedeu.
Talvez as cobertas fossem suficientes para acobertar a distância.
Talvez para Dmitri e Catarina o
céu às seis da manhã de domingo fosse o suficiente.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Insônia
Enquanto a noite dorme, eu sonho
Só no sonho o sono que sonho adormece a noite comigo
Enquanto a noite queima, eu águo
Verter, em mãos, delírios e ver – ter – irmãos de lírios
Enquanto a noite acorda, eu espero
Elo tenso pela fragilidade atada tem sua frágil idade delatada
Enquanto a noite dança, eu sinto
A noite, me abraçar, e a noite me abraçar
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
As Camas e Os Sonhos
Agarrou
seu travesseiro. Pensou em abrir os olhos, talvez tenha pensado, mas não abriu.
Não sabia exatamente em que cama estava, mas em seu âmago fazia ideia. No fundo
de si, em seu peito soube e enfiou o rosto em seu travesseiro para esconder-se
da verdade iminente. Sentiu-se observado. Estivera sendo observado desde muito
antes e fora isso que o fizera acordar. Olhos quentes, coração quente, membros
esquentando e envolvendo seu corpo, tomando seu peito e abraçando-o quente
contra sua vontade fria. Virou para reconhecer os olhos que queimavam, donos
dos braços que cercavam, das pernas que aninhavam e do que havia entre elas que
o aprisionava. Ainda de olhos fechados, tateou o rosto dela com o seu, suas
costas com suas mãos, suas coxas com suas mãos, seu rosto novamente e abriu os
olhos. Seus olhos castanho claros viram os negros de Carmem.
Dmitri
aos poucos lembrava-se da noite anterior, de como Carmem aparecera em sua casa
pouco antes das duas da manhã, de como ela esteve, bêbada e rancorosa e
claramente a fim de arrepender-se por algo que não havia feito ainda. De como
levantara-se de sua poltrona contra a sua vontade, deixando sua cerveja pela
metade na mesa de centro, olhara para a janela e vira-a molhada e o chuviscar
pesado por trás dela, para então caminhar até a porta e receber uma mulher
sinuosa com quadris sinuosos, cabelos negros encharcados escorridos, rosto
encharcado e escorrido e quase sem expressão senão a de súplica calada que
pedia desnecessariamente urgente um abrigo, não da chuva, mas da vida, de sua
casa, de tudo. De Luka.
Acendeu
seu cigarro e virou o rosto, não queria confrontar o rosto que jazia no que
fora sua cama e agora era um túmulo. O que Luka pensaria? Amizade de anos –
eram irmãos. Não desses de sangue, nem do tipo que se escolhe, mas aqueles dos
quais não se pode escolher se é irmão, ou não – apenas se pode ser. Agora...
Traíra Luka. E agora?
Resolveu
continuar de costas para Carmem e fechar os olhos. Cenhos franzidos, tentou
repentina e gradativamente voltar a dormir. Pensamentos turbulentos, memórias
recentes carregadas de sentimentos invadiram-no e reviraram-no.
Por
fim resolveu abrir os olhos novamente. Acordara sozinho, desta vez, num quarto diferente:
o seu. Confuso, aos poucos tomou a noção de tempo que se perde quando se
adormece e percebeu que este fora apenas um sonho. Não, não fora um sonho,
aliás, apenas um sonho. Fora uma lembrança – a lembrança de sua primeira noite
com Carmem.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Conversa de Lencóis I (Interlúdio)
- Eu bebi uma cerveja com ele. – Disse Carmem,
cobrindo-se. – Mas foi só uma cerveja. Juro.
- E
daí? – Respondeu Luka, acendendo seu cigarro. Era um cigarro compreensível,
aquele depois da transa. Ainda assim, Luka agora fumava muito mais do que já
fumou ao longo de sua vida.
- E
daí nada. Achei que você fosse querer saber. Eu iria querer.
-
Por que gostaria de saber? O que há de especial nisso? Houve algo de especial
nisso?
-
Primeiro que eu não gostaria de saber: iria querer saber, mas a muito
contragosto e até bem relutante, mas iria querer, sim. Segundo que você sabe o
que Dmitri quer de mim e suponho que não esteja confortável com isso.
-
Por que não estaria? Todo homem tem o direito de achar o que quiser, querer o
que quiser. Ele está no direito dele em querer ter você e somos amigos.
Respeito isso dele e sei que não é pessoal. Se você me trair com ele, a culpa será
toda tua. Só tua.
-
Mas como assim? – Disse Carmem, cobrindo-se mais, além dos ombros, expondo
apenas o rosto de pescoço coberto, os cabelo longos ruivos e macios e os dedos
que seguravam o lençol.
-
Mas como assim que você está comigo. Você. Só você. Não é ele que está e se
algo acontecer, terá sido falha tua. – E então Luka bateu as cinzas de seu
cigarro no cinzeiro da cabeceira da cama, espreguiçando-se logo em seguida –
Mas isso não importa, você não faria nada disso, faria?
-
Não faria...
-
Não?
-
Não, não faria... Não faria.
-
Tudo bem. Não faria. Sei que não faria. Me passa outro Lucky?
-
Claro. – pegando o maço e dando a Luka – Mas, Luka, me fala o que você foi
fazer na quinta passada. Acordei no meio da noite sem você, uma folha queimada
em cima da mesa, uma rasgada, presa na máquina de escrev...
- Olivetti.
Chama-se Olivetti. O-L-I-V...
- Tá
bem, tá bem. Uma folha rasgada presa à Olivetti, uma garrafa de uísque vazia ao
chão, enfim, você longe. Você longe, o sofá vazio, minha cama vazia, minhas
pernas vazias, meus braços vazios, tão frios, estava frio, tão frio e você
deixou a janela aberta. Levantei para fechar a janela e pensei ter visto você
equilibrado no parapeito da ponte dos mendigos, mas é loucura minha, não é? Vc
não tem motivos pra pular, claro.
-
Claro. Loucura sua. Se eu tivesse pulado, não estaríamos conversando sobre você
pensar ter me visto pulando de algum lugar.
-
Ai, Luka! Luka, eu fiquei tão preocupada! Nem dormi até você voltar! Bêbado,
fedendo a Bourbon e a cigarros, mas vivo e em casa e comigo! Não sei onde
estive com a cabeça ao pensar... Aliás, não, não pensei em nada. Vem comigo, me
abraça. Me abraça e pela manhã você escreve sobre mim, sobre o quarto creme de
luzes fracas amareladas e lençóis de cetim branco, sobre a cama circular, sobre
meu beijo, sobre mim... Sobre nós dois.
-
Carmem – Luka estava atônito com o turbilhão que fora sua garota neste momento
e em quanto ela deveria amá-lo para exibir uma paixão torrencial desta forma –,
mas é claro que eu escreveria sobre nossa noite. Essa obra eu vou chamar de
Gripe, pra fazer jus à gripe que peguei na quinta-feira.
sábado, 19 de janeiro de 2013
A Vista e As Surpresas
-
Tenho uma cerveja, quer? – disse de cenhos franzidos, virando o rosto para não
olhar para ela. – Não é nenhum dos teus vinhos chiques, mas quebra um galho.
Ele
perguntou isso já sabendo que ela aceitaria a cerveja, nada poderia dar errado
neste momento, fora tudo longa, fria, minuciosa e demoradamente calculado
segundos antes. O tom, o jeito, o desinteresse, tudo falso, tudo ele, tudo do
que ela precisa, tudo do que ela sentia falta em Luka, tudo o que ela não via
desde que o conhecera, naquele Novembro chuvoso. Dias quentes de noites úmidas
e abafadas, afobadas para cada pessoa naquela cidadezinha chamada Rio de
Janeiro, uma pobre cidade grande que de tão longe parecia uma ilha.
O
terraço era o ambiente perfeito, aquele prédio era perfeitamente alto, as luzes
perfeitamente amarelas e todo aquele mar de luzes acesas de todos os prédios
menores, todos os postes nas ruas, sinais vermelhos, bares abertos, hospitais
acesos com gente apagada, sinais verdes e carros parados, boates apagadas com
gente acesa, mar de pessoas atravessando sinais amarelos e a noite começava nas
onze da noite da zona sul do Rio. Essa era a vista que Dmitri e Carmem tinham e
essa vista perturbadora e cativante seria capaz de criar o momento perfeito
para que Dmitri pudesse conquistá-la. A véspera de Natal também dava a condição
ideal para isso. Era só esperar a resposta – o álcool faria o resto.
Dmitri
tinha “quando”, “como”, “onde” e “porque” para fazer aquele “que” tão esperado
com Carmem e agora...
-
Não, obrigado. Vc sabe que eu não bebo. – ...ela respondia.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Parapeitos e Ruínas
Tec tec. Tec tec tec etec tectetec
tectetetec tetec tec tec tectetectetectetetec tetetetetetetetetetec. Tec…
Tec… Tec tec tectetetectetec tec tetec tec. Tec
tetectetectetetecetetetetetetetectetec – MERDA! Merda, merda, merda! Não era
nada disso! Nada disso!
O
estampido seco, forte e bruto na mesa não foi tão alto, mas foi tão agressivo
que quase acordou Carmem. Esfregara os olhos e com dificuldade e cenho franzido
observava Luka ter outro ataque ao interromper sua obra com falta de atenção,
sono e inspiração, para logo então voltar a se perder no transe de seu torpor
de sonhos.
Não
fumava, mal bebia e ainda assim pegara um copo limpo porém empoeirado para
encher de Bourbon e acompanhar seu Lucky Strike. Infelizmente Luka passara
tempo demais com Dmitri e agora tornara-se uma cópia barata sua, ainda que com
talento indiscutivelmente superior ao original.
Pousou
o cigarro em sua boca para dar longas tragadas e passeou os dedos de sua mão
esquerda testa acima, penteando seus – aos poucos rareando – cabelos negros e
lisos, para então coçar um par de vezes sua nuca, dar a Carmem um olhar de
testa franzida e sorriso de canto de boca daqueles de amor calculado,
planejado, quase verdadeiro quase falso, que não diz nada demais, mas não diz
nada de errado, só existe por existir num canto de quarto ao lado do abajur.
Por amar esse amor de conhaque numa manhã chuvosa de sábado, decide sair sem
avisar, sair sem querer, sair sem voltar talvez, talvez voltar, talvez, talvez
outro dia quando ela não estiver mais lá. Talvez não devesse ter levado os
cigarros.
Um
vulto subia as escadas que levavam ao andar de cima, mas não era um vulto tão
importante. Nesse momento, só o lance de escadas que levava ao andar inferior e
o que levava do andar inferior ao abaixo deste e assim por diante realmente
importavam a Luka. O papel de parede floral velho e feio e desbotado não
importava, a iluminação precária nos corredores e lances de escadas – ausente
no lance de escadas entre o segundo e o primeiro andares – também não. De pouco
em pouco Luka aproximava-se ao lado de fora do prédio. De frente à porta
principal do edicífio – de ferro, com adornos dourados – Luka prontamente
segurou a maçaneta, mas como que sentisse o que o esperava lá fora, como que
esperasse o que o sentia lá fora, demorou a girá-la. Mas enfim girou-a.
Um
vento frio e seco cortou-o como um tablete de manteiga. Excitante para Luka.
Gostava disso. Era não muito mais cedo que três da manhã e o céu era negro e
limpo, sem estrelas, sem luar, sujo pelo brilho branco dos vários belos postes
que iluminavam essa rua, boa rua bem habitada, com paralelepípedos no lugar de
asfaltos, com árvores no lugar de pessoas, com solitude no lugar de solidão. O
uísque caminhou Luka até uma ponte não muito longe e a fumaça de seus cigarros
poderiam ser confundidas com a fumaça de sua respiração. Não via muito sentido
no que fazia, nem no que vivia, nem no que escrevia, nem nas noites com Carmem,
nem nas noites ou dias que passava sozinho mesmo bem acompanhado.
Um
último trago e com um toco de cigarro entre indicador e médio esquerdos olhou
para o farol ao longe. Jogou não tão longe o toco de cigarro e riu, olhando com
um olho esquerdo apertado e um olho direito fechado, seus polegar e indicador
esquerdos agora espremendo a luz do farol. Sorriu como que satisfeito com seu
trabalho bem feito. Jogou na água o copo vazio de sua mão direita e subiu no
parapeito da ponte. A sensação era indescritível, toda a liberdade e toda a
autonomia que o momento conferia. Toda a vida que ele finalmente sentia em seu
corpo, em suas mãos, em seus dedos enquanto se esvaía, enquanto jorrava e
pulsava e pulava por ele. Mas seu corpo não ia. Não pulava, não ia.
Desceu
do parapeito e acendeu outro cigarro e decidiu voltar para casa. Lembrou-se que
não era possível se matar enquanto há uma obra-prima arruinada não amassada
ainda presa a sua máquina de escrever.
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