sexta-feira, 22 de julho de 2011

Emendando em outra

Agora uma recente, chama-se I Wanna Fall Asleep

I Wanna Fall Asleep

Eu não sei como vou dormir
E não quero nem saber
Entre goles de tônica e gim
Entressafras entre eu e você

À noite eu ponho meu melhor perfume
Aquele que eu pus para te conhecer
Bato seis cordas com dois olhos úmidos
Cigarro na mão e papel para eu escrever

Como os dias vão passando devagar
Que acordar de manhã pode ser doloroso e solitário
Como as noites passam me matando devagar
E que os dias sem tréguas dão tanto trabalho

I wanna fall asleep

À noite eu ponho meu melhor perfume
Agora pra outra que vou conhecer
Rasgo minha voz entre palavras duras
Um trago na mão e outro pra você

Os dias vão passando devagar – I wanna fall asleep
Acordar de manhã pode ser doloroso e solitário
As noites me beijam e me levam devagar – I wanna fall asleep
Os dias dão tanto trabalho

I wanna fall asleep

Voltando

Com algo já antigo, de março, mas ainda não postado. Venho com Tatuagens.

Tatuagens

Vou cobrir o meu corpo
De tatuagens
Pro amor não me reconhecer
Vou cobrir o meu rosto
Com falsas saudades
Me enganar que ainda quero te ter

Ando fugindo do escuro
Noites em claro no azul da tevê
Se em algum momento eu estive inseguro
Foi por não esperar ser feliz sem você

Até que um dia acordei à deriva em alto mar
Eu me encontrei e percebi que não deveria mudar
Apenas levar minhas mãos aos céus e dar
Graças a Deus – sozinho, eu posso me virar

Vou cobrir o meu corpo de tatuagens
O amor não vai me procurar
Vou cobrir o meu rosto com falsas saudades
Das quais você vai acreditar
Vou cobrir os meus olhos com meias verdades
E a paixão por você, vou poder negar

domingo, 29 de maio de 2011

Blindagem

Um escritor deve ser por inteiro, amar por inteiro, sofrer por inteiro, perder por inteiro. Até hoje amei tudo que pude, sofri tudo que pude, sem dúvidas perdi tudo o que pude, também. Faz parte de ser escritor, também, saber amassar os papéis que levam ao fim prematuro da história, gozar de seus vícios enquanto esvazia sua mente e escrever um futuro novamente sem abrir os olhos, mesmo que o medo o faça titubear.

Quem vive blindado está morto por dentro. Vejo minha vida passar pelos meus olhos toda vez que morro e limpo os escombros de meu rosto sempre que renasço. Toco os céus e emudeço as estrelas para que nenhuma possa desferir lembranças do passado sobre minhas noites.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A hora final

Olhei para o relógio – quatro da tarde. A gente sempre pensa que esta hora nunca vai chegar, mas ela sempre chega. Chovia demais, quase que como se Deus estivesse arrependido do que fez, ou como se Ele estivesse chorando pelo mal causado, ainda que este mal fosse necessário, ou um bem camuflado, vá saber. A gente sempre pensa que esta hora nunca vai chegar, mas ela sempre chega – a hora da partida, a hora da saudade, a hora da dor – chovia demais e estava impossível manter a lucidez durante o velório de minha avó.

Em meio a tantos rostos inchados e vermelhos, alguns com olhos úmidos cobertos por óculos escuros, chega uma membro da Pastoral – ou seja lá qual for o novo nome deles – para rezar conosco, aliviando um pouco a tensão já densa no ar. Em um momento de comunhão, um coro dissonante numa falha tentativa de cantar em uníssono soa tão bem, como que lembrasse que ainda somos apenas homens, somos terrenos por hora e não devemos questioná-Lo – e sinto que foi MUITO importante lembrar disso, pelo tanto que O xinguei e como O xinguei!

Um reflexo do que fomos em vida é o nosso velório e minha avó esteve com seu quarto cheio, pois ela foi uma das mais belas almas vivas, mesmo com seus poucos defeitos, já que seu coração era um dos poucos ainda puros no mundo e, diga-se de passagem, um dos mais puros. Não acredito que na minha hora vá ter muita gente me vendo deitado no caixão, muito menos gente chorando por mim e eu talvez sinta uma pequena vontade de mudar – não nego que ela me serve de exemplo em diversos momentos, pela perseverança que ela teve em diversos momentos da vida, como quando decidiu seguir em frente com seus estudos, apesar de situações adversas e contextos sociais que todos já cansaram de saber, entre outros fatos que não cabem ser ditos aqui.

Ao fim da oração, saí com os olhos mareados e para minha surpresa o céu estava nublado, porém a chuva havia acabado. Acredito que esta mudança no cenário marcou sua ascensão, marcou o momento em que ela finalmente nos deixou para estar naquele espaço prometido que muitos de nós buscamos. Neste momento, muitos decidiram partir por não agüentar mais a agonia deste ritual tão doloroso e, sinceramente, não os culpo, pois talvez eu não tivesse estômago para agüentar ver uma amiga de décadas – no caso, mais de duas – partir assim.

A gente sempre pensa que esta hora nunca vai passar, mas ela sempre passa. Cinco horas da tarde e finalmente o sepultamento começaria. Caixão fechado, levamo-lo para fora e qual é minha surpresa senão o céu – antes chuvoso, úmido e opaco, logo mais nublado e cinza, agora com o dourado gritando ao horizonte, abrindo parcialmente as nuvens e deixando o azul do céu dar sua graça brevemente. Como se dissesse que aquela era sua hora e que ninguém deveria ter dúvidas, como se mostrasse que ela estava bem e que nos esperaria por tão pouco tempo se comparado aos anos juntos na eternidade do carma, como se saudasse os oitenta e um anos em que ela viveu, em que ela deu o seu coração e sua vida pela contemplação do que há de mais belo no mundo: a própria vida. Descanse em paz.

domingo, 15 de maio de 2011

Olhos negros

Às vezes sinto que te perco
aos poucos, como fumaça de cigarro
inalo e você se vai, foge de mim

Busco na memória os olhos que não queria perder
quando você olhou pra mim com
olhos negros
e na memória você olha pra mim e só pra mim
e na memória você me beija e só a mim
e na memória os dias
e as tardes
e as noites
e as noites inteiras
só valeram com você e quando esperei amanhecer
pari um sol direto do coração
pois assim me sentia

Às vezes sinto que te perco
mas pra falar a verdade,
e você vai concordar,

Eu nunca te tive.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Sem besteiras e sem bebidas

Dmitri tentou pela sexta noite seguida, em vão – outra noite sem sono – ele dizia –, outra noite sem besteiras, sem bebidas, sem Beatriz.

Atormentado, perdia o foco que destinava a observar o lento movimento do ventilador de teto cada vez que seu coração pulsava. Não comia a cerca de trinta horas e não dormia a pouco menos de cento e quarenta, sua vista embaçava na falta de uns óculos e sua cabeça também, na falta de bebida.

Fora da cama num pulo, foi até sua mesa, alcançou um de seus Luckies e acendeu-o: ascendeu. Apoiado à janela, observando a Lua que se escondia atrás dos fundos do prédio que havia feito-lhe companhia nos dias que passaram em meio à fumaça azul de seu cigarro, Dmitri tinha uma certeza – ele havia cagado tudo desta vez, tudo, mas dias melhores viriam como sempre vinham quando ele pensava que estava tudo perdido. Eles sempre vinham.

- Outra noite sem besteiras, sem bebidas, sem Beatriz – repetiu, apagando seu cigarro na sacada, logo após deitando-se. Dmitri tentou pela sexta noite seguida e desta vez conseguiu.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Gripe

Ela não gostava dos meus cigarros. Não gostava do cheiro do cigarro, do gosto do cigarro, do mal do cigarro. Virava o rosto pros meus beijos depois que eu terminava meu cigarro e eu tinha de convencê-la com meus lábios a me querer novamente. Conheci-a tem duas semanas e sinto como se houvesse conhecido-a há meses e tivesse-a na minha vontade, na minha cabeça, há anos. Alva de olhos castanhos, cabelos claros, boca macia, corpo suave, ela ardeu em minhas mãos como uma garganta no deleite ébrio do conhaque. Jamais esqueceria o quarto escuro do motel se encolhendo claustrofobicamente ao tirarmos as roupas, num desdobrar de corpos, no febril arfar sob gemidos, no febril afã sobre seu corpo, no febril afago sob as cortinas. Por alguns momentos, cheguei a ter certeza de que queria acordar com ela pelo resto da minha vida, mas tudo parece possível em quartos escuros de motel – neles, os sonhos são reais e o coração sempre é correspondido.

Ela não queria nada, nada sério. Eu quis. Acho que ainda quero. Há algo de especial nela – eu não fumava perto dela, mal bebia perto dela e com ela eu fazia a barba dia sim, dia não e se isso não for um esforço considerável, eu não sei o que é. Ao conhecê-la eu peguei uma doença chata e comecei a tossir bastante – meus olhos ardiam, meu corpo ardia, a luxúria ardia, a luxúria queimava, queimava em febre. Ao conhecê-la eu peguei uma doença chata e meu coração não é o mesmo desde então.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Carrossel

Eu finalmente fazia uma melhor ideia de você. Há tempos eu já tinha noção, mas não sabia exatamente o que diabos, o que diabos eu sentia, o que diabos você era, por que diabos eu demorava a me levantar ao cair. E tudo era tão igual e todas as cenas se repetiam e os sentimentos repetiam e os beijos, os beijos, CÉUS, se repetiam e você não sumia nem por um segundo. Eu passeava em círculos até notar que corria sempre para o mesmo lugar e ainda assim era incapaz de lhe encontrar, você parecia nunca estar logo a minha frente, sempre à mesma distância, sempre tão distante. Minha bela menina, você é meu carrossel. Você é meu carrossel e eu não lhe encontro porque ando em círculos, mas nunca me veio à cabeça a idéia de procurar você no centro da miragem pela qual eu passeava.