segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Última Gota

Dmitri estava apertado. Tanta vodka não faria bem a ninguém, mas isso nunca quis dizer muita coisa pra ele. No caminho, estava pensando na última gota de suor que correria pelo seu corpo. O Rio de Janeiro era uma cidade quente, não havia dúvidas. Seu suor o cobria como que derramasse um pouco de si sob a calçada, um pouco de vida que ficava pra trás e deixava sua marca molhada no cimento pelo qual passava. Dmitri refletia, enquanto perdia sua vida aos poucos, nas suas últimas gotas de suor.
Quando Dmitri acreditou que não poderia mais suportar o castigo do poderoso Sol, quando acreditou que não havia mais máculas para justificar uma punição cruel que só aqueles que viviam sob o Trópico de Capricórnio conheciam, neste momento, sentiu as primeiras gotas de orvalho que o abraçariam, trariam o carinho que tanto esperava e que cuidariam de seus ferimentos. Lembrou-se de quando era uma criança e dos dias em que olhava para o mundo pelo lado de dentro da janela, com o rabiscar d’água passeando pelo vidro enquanto os estalos se propagavam pelas sacadas e as poças se formavam nos buracos do asfalto. Memórias ternas de quando seu pai chegava atrasado e, ainda assim, com um sorriso no rosto, com a indisfarçável saudade que sentia da família. Foi quando se lembrou da saudade que sentia de seu pai. Velho, decrépito, estava morto, ainda que entre os vivos. Uma vida de decepções havia consumido seu coração e sua alma, o tornando irreconhecível. Seu rosto, agora destorcido, estava amargo. Suas mãos, enrugadas e descascadas, não se encontravam sem um cigarro entre seus dedos por mais de cinco minutos. Seus olhos, que brilhavam leves com a esperança e com os sonhos dos bem-aventurados, agora estavam opacos e pesados. Seu peito, que carregava vida, agora estava vazio. Dmitri entendia que uma vida absurda era mortal para quem tem o simples apreço pela vida, mas nunca foi capaz de entender que seu pai foi dono das escolhas que fez e que se era infeliz, este era apenas o retrato que um dia pintara. Ele, então, começou a culpar a sociedade como seu pai o fez, antes de perder sua sanidade. Dmitri, então, observava a última gota de chuva cair sobre seus lábios.
Foi então que se deu conta de que seu dia-a-dia era vazio e que sua vida não tinha sentido. Estudava para se tornar uma pessoa comum, com seu trabalho comum, que ganharia seu dinheiro comum. Nada contra a mediocridade, mas naquele momento Dmitri percebeu que não sabia o porquê de cada atitude sua. Não sabia o porquê de seu trabalho, o porquê de seu dinheiro, ou o porquê de sua vida. Babaquices filosóficas à parte, pondo o prático no prático e o real entre seus iguais, ele quis ser tanto, no entanto se tornou quase nada. Não era feliz com sua escolha, não compreendia que havia certo glamour na figura de um indigente, certo charme que só um John Doe teria. A indiferença lhe assustava, lhe era feia. Não entendia que os homens eram todos iguais, uns mais iguais que os outros, tão desiguais. Estava sentindo que a última gota se aproximava e que iria transbordar em breve.
Nem percebeu que havia chegado em casa, graças aos pensamentos que sem piedade bombardeavam sua vã consciência, e logo foi ao banheiro. Acalmava-se, aos poucos, quando, ao terminar, pensou em algo absurdo como sua vida. “A última gota sempre cai na cueca”, pensou Dmitri. Sua resposta, dada em voz alta, foi “Foda-se.”.
Dmitri vestiu-se rapidamente, sem balançar, lavou suas mãos e se dirigiu à sua máquina de escrever.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Untitled

Talvez seja surpresa pra uns, mas eu faço parte de uma irmandade. Era freqüente, em meus anos de mocidade. Não costumo falar sobre isso, até evito, mas estou citando isso porque é algo essencial para o que vou dizer a seguir.
Era uma e meia e eu saí de casa, para encontrar Fernando e, assim, irmos de encontro a um rapaz que estava sendo indicado por um tio nosso. Fê tinha o endereço e os telefones, mas sequer sabíamos o bairro onde o garoto morava. Era neto da antiga caseira do condomínio onde costumávamos atuar.
Cheguei as duas e quarenta no Flamengo, em frente ao prédio do Fê, e liguei duas vezes para ele, mas ninguém atendeu, logo decidi subir, pois esperar nem me parecia uma boa opção. Subi e fui recebido por alguém que não fazia idéia de quem era, enfim, ele estava no banho e eu deveria esperar e assim o fiz. Cochilei, no meio tempo, até que ele saiu do banho, descobrimos o bairro e nos pusemos a ir. A Vargem era grande e a viagem longa.
Pegamos um três oito dois na Praia de Botafogo, e passeamos pela orla. Copacabana, pela Atlântica, é tão linda. Vieira Souto, em Ipanema, nossa. O Sheraton passou por nós, quando passávamos pela Niemeyer. Ao passar pela Ponte da Joatinga, finalmente me dei conta de inúmeras memórias que já se perdiam após anos e anos. Época em que morava no Flamengo e cruzava essa ponte – que sempre me impressionou – quando ia com meus pais dar uma volta, desde que nasci até meus onze anos. Eu fiquei atordoado, no momento, pois de tanto, de tudo, me lembrei. De toda a arquitetura da ponte, dos túneis, o cheiro da maresia naquela ponte, do mar, das ilhas que fugiam para o horizonte. Saudosismo, por que me abraças?
De todo modo, seguimos sempre em frente, passando pela Ministro Ivan Lins, enfrentando um pouco do trânsito parado. Não desgosto de ficar na estrada, ou nas ruas, dentro de uma condução, esperando o destino chegar. Pra ser sincero, adoro, mas se há alguma coisa que eu detesto é engarrafamento. Não suporto e explodiria todos os carros, se pudesse, ou dirigiria um desses Monster Trucks, para passar por cima de cada um dos carros que quisesse desafiar a força incessante do ímpeto natural de seguir em frente.
Passado o engarrafamento, continuamos. Já havia se passado uma hora de viagem e ainda estávamos no Recreio. Fê havia ligado para a Tia e ela nos deu uma referência, para que pudéssemos usar na hora certa de saltar do ônibus. A trocadora desconhecia a referência e ficou por isso mesmo. Decidimos esperar. Ao passar por Vargem Pequena, pedimos ajuda a outra senhora que nos apontou com precisão o ponto no qual deveríamos descer e onde a rua estaria ao descermos. Descemos e resolvemos dar uma mijada no mato. Apontei meu pênis para Fê e ameacei mijar nele, mas minha razão falou mais alto e eu mirei numa árvore. Enfim fomos rumo a tal rua.
Um dado curioso sobre a rua é que o número das casas que nela se encontravam se embaralhava. Não havia um lado específico para casas de número ímpar ou par. E tava tudo tão estranho, havia uma neblina. Fê e eu brincamos que estávamos em Silent Hill e aquela rua não fazia sentido, até porque, no fundo, não fazia. Ela desembocava numa pracinha onde não havia essa casa. E aí? Bem, pedimos arrego e fomos a um bar perguntar aos donos do estabelecimento sobre a tal casa. Eles nos disseram que não havia tal casa lá - o que reforçava a idéia de Fê que estávamos em Silent Hill -, mas que havia outras ruas homônimas pela região, uma mais ao fim da estrada, outra lá atrás, no Recreio, no Terreirão, mais especificamente. Xinguei Deus, o mundo e o Fê e me mandei de lá com ele. Pegamos um setecentos e três e paramos após passarmos o Recreio Shopping e lá pedimos informação a um feirante que ficava por lá. Ele ficou passando um papo estranho, dizendo saber onde fica a tal rua, que mora lá perto, ia levar a gente lá, enfim, tudo bem. O cara parecia ser prestativo. O papo só ficou estranho quando ele disse que não tinha certeza se aquela era a rua, pois vivia lá de aluguel e não sabia o nome da rua onde morava. AÍ eu me preocupei.
Quando comecei a escrever meu romance, citei Kerouac ao dizer que num país de terceiro mundo como o Brasil, onde o desigual mora ao lado, viajávamos ao México todo dia da semana. Pois bem, sempre vi a pobreza de longe, seja em livros, em televisões, em obras sociais relativamente próximas aos locais, ou no trajeto de volta para casa, mas nunca estive tão perto, nunca pisei num chão revestido pelas lágrimas e pelo suor do trabalho. E ao lado, um Shopping Center bem estruturado, a menos de cinco quilômetros. Me fez pensar, isso.
Voltando, depois de nos perdermos do cara e nos perdermos no bairro, procuramos a tal rua até que achamos a rua e a casa. A casa da Tia era uma casa bem bacana e destoava das demais do bairro. Era bem tratada e aconchegante e eu me senti melhor ao saber que ela e sua família moravam bem, lá. Conversamos por muito tempo sobre pessoas. Sobre as pessoas que passaram pela irmandade. Pelos fatos, pelas idéias que por ali passaram, também. Foi gostoso, foi um tipo de saudosismo próximo, pois eram saudades de pessoas com quem convivo. Enfim, logo mais fizemos o que deveria ser feito, agradecemos a hospitalidade e demos o fora. Pegamos um ônibus que passava pela orla e voltamos pro Flamengo. No meio do trajeto, em algum lugar do Recreio, tive uma visão. Na visão, Dylan me dizia para eu não me preocupar, apenas ser feliz e por cinco longos minutos eu o ouvi assobiar, até que adormeci. Adormeci pensando no dia em que voltaria para o meu Flamengo – bairro, claro, pois não renuncio o meu tricolor de forma alguma -, para, novamente, sentar à orla e fumar enquanto as estrelas me observariam. Ao chegarmos ao Parque Guinle, avistei um quatro três quatro de longe e rapidamente me despedi do Fê, para poder alcançá-lo. Dei um sprint até chegar ao Princesa, na Senador Vergueiro, pois o puto do motorista não parava pra mim. Eram nove e tanta da noite, mas não tinha me cansado até aquela hora. Talvez isso devesse significar que eu deveria fumar menos. De todo modo, sentado num banco do quatro três quatro, já poderia me considerar em casa. Na verdade já estava em casa e a noite já estava terminando. E terminava a breve noite de terça-feira, junto ao longo dia que a precedeu.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Ode a Bob

Numa tarde de sol, Dmitri esperava Goldenberg, sob o sol de uma da tarde, em pleno horário de verão.
- Oi. – respondeu ele ao telefone.
- Já te disse o quanto eu te odeio, hoje?
- Calma, eu já estou chegando.
- Eu não disse porque não te odeio mais, agora quero te matar.
- Ei, relaxe, relaxe. Já estou te vendo.
E Goldenberg descia a rampa que o levaria de encontro a Dmitri e ao estádio.
- Não foi tão mal, foi? – perguntava o judeu.
- Tirando o fato de que eu estava sob esse sol de quarenta bons graus e você se atrasou deste jeito, no ar condicionado do metrô, bem...
- Mas eu demorei assim porque eu quase fui assaltado saindo do metrô!
- E eu, vestindo esse tênis de boiola que, além de tudo, é minúsculo? - Dmitri vestia um all star de couro branco, imundo, que um amigo trocara com ele por um par de havaianas. – E o cara que trocou comigo veste trinta e nove! Trinta e nove!
- É, pequeno, o cara. Vem cá, por que aqueles dingos estão olhando pra cá?
- Ah, enquanto você demorava, fiquei sem nada pra fazer, então eu comecei a imaginar a vida daqueles mendigos. Veja você, está vendo aquele que ainda tem alguns dentes? Ele é o João. João passou a vida inteira correndo atrás do mundo por sua mulher, até o dia em que percebeu que ela não valia a pena e a abandonou. O outro, aquele sem a mão esquerda, é o Bob. Oi, Bob! – Gritou Dmitri, enquanto ambos responderam – Bob é gente fina, cara.
- Imagino que seja, sim, mas vamos para a fila? Temos que comprar meu ingresso.
- Depois de atrasar meia hora, você vem me cobrar assiduidade?
Goldenberg não respondeu e ambos seguiram para o final da fila.
- Sabe, eu acho que vai demorar.
- Ah, vai me culpar pelo atraso, de novo?
- Bob é gente fina demais. Perdeu a mão nesse conflito na Faixa de Gaza. Era um homem sem ideais, mas está aleijado por causa de um. Estranho, né?
- Mas o Exército Brasileiro participa do conflito?
- Bob participa. Viva o Bob! –Gritava ele, novamente. Enquanto muitos dos presentes na fila urravam por Bob, outros mandavam Dmitri calar a boca. – Todos acham Bob gente fina.
- Todo Bob é gente fina.
A fila andava, repórteres filmavam. A ascensão do tricolor era motivo de espanto. A tal repórter de quadris belos e fartos e siliconados peitos tentou entrevistar Dmitri, mas ele disse que não dava entrevistas. Ele se achava um babaca. Pois ela também.
Dmitri se despediu de Goldenberg, esse com os ingressos em mãos, e voltou pra casa.

O telefone tocou. Era Sasha, um velho amigo.
- Oi, ligou lá pra tia? – perguntou Sasha.
- Não, eu to ficando sem dinheiro pra essas ligações.
- Mas liga pra inglesinha, lá.
- Alto lá, nunca liguei pra Louise! Ela sempre me ligou, coitada. Ligou tanto pra descobrir que foi coisa de momento, uma aventura de verão.
- Você é um babaca. Fez a pobre criança sofrer.
- A culpa não é minha. Quando a vi na praia, pensei que era mais uma garota do sul nas praias cariocas, mas ao falar com ela, percebi que a vaca loira era gringa, na verdade.
- Sempre pelo caminho mais difícil, né?
- No fácil, elas não são rosa. – disse Dmitri, rindo.
- Você é um babaca.
- Tá, e você vai ligar pra tia? Eu realmente não to com grana pra isso.
- Um dia você vai ver que não tem ninguém mais pra te ajudar. Você suga Deus e o mundo, só pra evitar um esforcinho a mais.
- Entenda bem, você sabe que eu posso ligar, eu sei que eu posso ligar, mas sou um cara tímido.
- O caralho! Você é um mão-de-vaca!
- Como quiser, eu não quero falar com ela. Nem a conheço!
- E você ainda engana algumas pessoas de bem que pensam que você vale algo.
- Isso se chama inteligência. – “Isso se chama sorte!”, retrucou Sasha – Ou isso.
Sasha desligou o telefone.
Dmitri pensava no dia que tinha se passado e já não sabia mais se havia como torná-lo bom. Não, não havia – concluiu. Sabia que Bob saberia viver uma vida melhor que a sua. Então serviu uma generosa dose de uísque e colocou dois cubos de gelo em seu copo e pôs- se a tentar voltar a escrever seu livro.

domingo, 25 de outubro de 2009

A Espera - 2

Se eu contasse as minhas intensas noites de sábado a vocês, provavelmente gastaria meses ao citar detalhes atrás de detalhes, mas, por hora, me ocuparei por contar algo que testemunhei numa noite de sábado recente...
Acabara de acordar às dez e meia da noite de sábado, após um breve cochilo e decidi por matar o resto do tempo que me faltava, pois nada havia a se fazer naquela noite onde muitos já estavam compromissados, outros duros, outros nem na minha querida cidade estavam. De todo modo, recebi uma ligação e a voz que perguntava por mim não me era estranha, mas soava como um desses malditos operadores de tele-marketing – nada contra seus trabalhos, pois honestos e esforçados, porém demasiada-mente chatos, eram – e me dei conta de que era Jackson e ele tinha a parada certa para hoje à noite. Estava meio sonolento, ainda, e conversava com uma amiga minha que estava em sua cidade natal, logo, não levei fé na saída, por hora, mas logo topei. Mandei Goldenberg sair de suas sandálias sujas e gastas e roupas amassadas de ficar em casa e vir comigo. Relutante, pois duro, no início, logo cedendo, aceitou. Combinamos de nos encontrarmos em frente a um Shopping Center perto do local e logo fomos sabendo que nossa noite começaria quando a de muitos estaria por terminar – ao soar da meia noite.
Acompanhei o horizonte de minha rua, por onde passaria um ônibus que me deixaria praticamente em frente ao tal ponto de encontro, mas ele decidiu não passar. Decidiu, com toda a sua veemência e arrogância, por não passar tão tarde. Redirecionei o trajeto de minha ida, andando por alguns quarteirões até chegar a um ponto por onde passam dois ônibus que me deixariam lá. A espera foi longa e muitos dos ônibus que jamais passam – muito menos em bandos – passaram com rapidez avassaladora, mas, ao menos, foi uma espera finita. Neste ônibus haveria vários tipos que compõem a noite carioca como respeitáveis senhores boêmios, boys bem vestidos escutando um batidão, jovens bêbados e mal educados, além de mulheres bonitas e arrumadas, prontas para a ação. “Ah, a noite carioca!”, exclamei, eu. Estava novamente com os olhos na lua e com o sorriso na cara, atravessando a vida que transitava ao meu redor, como uma brisa suave atravessaria as folhas de uma árvore.
Ao chegar no Shopping, me senti menos vivo, pois me encontrava perto de gente cansada, fatigada, que havia perdido seu joie de vivre e isso me incomodava. Acendi meu cigarro e fiquei por observar a vazia multidão e suas manias. Ao passo que me recostei em um poste, uma jovem gatinha com seus prováveis dezesseis anos e dourados cabelos longos sentou próximo a mim. Flertava, com seus olhos castanhos e maquiagem em excesso, típica das ingênuas e inseguras garotas jovens. Talvez por timidez, ou bom senso, optei por não fazer nada, pois, por sua idade e condição solitária, estaria lá esperando a carona do pai ou de seu namoradinho mais velho com carteira de motorista. Uma noite de amor e luxúria se passou pela minha cabeça enquanto imaginava seus lindos e macios tornozelos bronzeados tocarem gentilmente suas orelhas envoltas por seus cabelos dourados, mas era apenas uma noite breve em uma cabeça fodida. Além do mais, eu acertei. Não vi quem estava no carro, mas ela se sentou no banco do carona e o carro deslizou para longe do alcance da minha vista.
Quis acender outro cigarro, mas dentre as pessoas próximas e presentes – cada vez mais raras – ninguém fumava, ou tinha fósforos ou isqueiro. Foi quando eu perguntei a um jovem que trabalhava com táxis se ele tinha algo para meu cigarro e ele me cedeu seu isqueiro. Agradeci e rimos, contando sobre casos e acasos nossos, ao procurar fogo para nossos cigarros. O rapaz tinha um sorriso delicado e singelo e olhos humildes e, sem dúvidas, tinha o joie de vivre que faltava aos demais ali presentes. Em certo momento, me retirei para aproveitar a solidão da espera.
Foi quando me deparei com algo que me deixou perplexo por alguns momentos. Talvez fossem os cigarros fumados rapidamente, talvez fosse o calor recente das noites regidas pelo horário de verão, mas eu suava e muito! Então reparei, ao olhar para o céu, que naquele prédio razoavelmente grande em frente ao Shopping havia certa solidão.
Estava por ver algumas janelas aglomeradas e unidas por suas luzes acesas, cujos donos residiam esperando a febre do calor, ou, quem sabe, o delírio febril da noite licenciosa de sábado, passar, mas um apartamento chamou minha atenção. Este janela, em especial, se localizava no último andar deste razoavelmente grande prédio e, como as outras, tinha sua luz acesa. O que havia de tão especial nesta janela, para que eu me sentisse tão mal ao olhar para ela? O que despertava esta pena em mim? Era uma janela como todas as outras, mas, diferente delas, estava solitária, andares acima das demais que iluminavam umas às outras como pessoas curtindo a solidão em conjunto, e, além do mais, sua luz trepidava, ao girar das hélices do ventilador de teto. Por algum motivo, esta janela me comoveu, pois senti pelas pessoas que ali estavam uma grande vontade de amá-los. Amá-los e tirá-los da amarga condição de sofredores, de carentes e solitários amantes que jamais seriam mais que náufragos vizinhos, cujas ilhas não se tocariam. Imaginei se seriam eles felizes e se em algum dia eu me deixaria ser assim. Por algum momento, eu realmente acreditei que sim, mas, por sorte, antes de chegar a sentir pena de mim mesmo, queimei meus dedos com meu cigarro, que já havia acabado e, dele, só me restava o filtro. Vi que já havia passado de meia noite e quinze e decidi ligar para Goldenberg e Jackson. No momento em que tirei meu celular do bolso e comecei a catar o número de Jackson na agenda, Goldenberg me assusta, ao me surpreender pelas costas. Rimos e, logo, a espera havia terminado.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Nunca, mas nunca mais...

Estou há um tempo sem postar nada.
Esse post, esse poema, é sobre o atraso de vida que é negar a si mesmo o que se sabe que quer.
Esse é um post sincero, como muitos outros.
Esse poema é Nunca Mais

Nunca Mais

Do sol que se põe ao sol que nasce
A face com a qual me olhas
Me olha como se não desejasse

Da noite mais triste à mais triste solidão
A mão com a qual me afagas
Apague as luzes e me deixe só, então

Um cruel "Boa noite", um breve "Até mais"
Segundos presos no tempo
Que, segundo você, não se repetirão
Nunca mais

terça-feira, 22 de setembro de 2009

À Espera ou A Espera?

Tenho minhas dúvidas, sabe?
Por enquanto será A Espera...

A Espera

Não posso te encontrar
Pois espero por esse momento
Há tanto tempo que nem lembro

Da noite em que te vi
Há tanto tempo é passado
A noite em que te vi
Pela primeira vez
O amor me chamou

Não posso te encontrar
Pois espero por esse momento
Há tanto tempo que me lembro

Do dia em que te vi
Há tanto tempo que passou
Do dia em que te vi
Pela última vez
Me esqueça, acabou

Não posso te encontrar
Pois espero esse momento
Há tanto tempo que a lembrança

De quem eu conheci
Há tanto tempo, é passado
E quem eu conheci
Já não espero encontrar
Eu perderia o sentido da espera
Enquanto que esperar outro beijo
Não faria mais sentido.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Como luz...

"O ouro é usado como símbolo de pureza, valor, realeza, ostentação, brilho etc. O principal objetivo dos alquimistas era produzir ouro a partir de outras substâncias, como o chumbo. Muitas competições premiam o vencedor da competição com medalha de ouro, o segundo colocado com medalha de prata , e o terceiro colocado com medalha de bronze = cobre ( os três pertencentes ao mesmo grupo ( 11 ) da tabela periódica dos elementos ). Em Cavaleiros do Zodíaco, os Cavaleiros de Ouro são os que estão no topo da hierarquia, tento seus nomes associados às doze constelações da Eclíptica."

Sério que Wikipedia citou Cavaleiros do Zodíaco em um artigo nem um pouco relacionado?
Tá, né.
Vamos ao que interessa.

Ouro.

Andando sob o olhar da luz dourada
Nada vai nos fazer parar
A vida foge com o nosso suor
E com um nó na garaganta estamos a gritar

Nós vemos o ouro, nós temos o ouro em mãos
Mas só nos resta o sol a brilhar
Não vêem nosso choro? Damos seus tesouros em mãos
Pra, mais um dia, se poder aguentar

Marchando sobre a dor da areia dourada
A cada dia, um de nós fica pra trás
Com a esperança de um dia ser livre
Vive, em agonia, esperando a paz

Nós vemos o ouro, nós temos o ouro em mãos
Mas só nos resta o sol a brilhar
Não vêem nosso choro? Damos seus tesouros em mãos
Pra nunca mais

Nunca mais...

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Como a ametista...

"A ametista é símbolo da transformação. Calmante, facilita a concentração e memória. Desenvolve a intuição e poderes psíquicos. Ótima para meditação. Favorece os ideais elevados e a evolução espiritual."
~Fonte - http://tuathadulac.blogspot.com/2008/09/cristais-ametista.html

E púrpura é a cor do coração.
Engraçado como esta cor é constantemente relacionada à tristeza.

Púrpura

Cor púrpura, por pura vaidade
Da validade expirada de
Uma inspiração
Lábios tristes, sorristes labirintos
Sinto vazia a'lma
Que me despia

Da solidão que eu vestia

Cor púrpura, por pura inocência
Minha essência você assassinou
Olhos calmos, calados seguiriam
Cegamente a mente que ria

Da solidão que eu vestia
Um manto púrpura
O manto púrpura

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Na verdade...

"Este homem - chamemo-lo como o autor, de Mersault - ao contrário de seus antepassados não encontra mais explicação nem consolo para o que acontece na sua vida. Tudo acontece à sua revelia e nada faz o menor sentido. Sua vida não é explicada por nenhuma fé, nenhuma religião, nenhuma ideologia, nem mesmo pela fé na ciência. Este homem não tem nada em que se amparar. O que pode ser visto como uma vantagem: este homem é livre, pode se fazer a si mesmo, sua vida está em aberto."
~ Arthur Dapieve, sobre O Estrangeiro, de Albert Camus.

Absurdo É Liberdade (Verdade)

No fundo do copo está o perdão
A solução no fundo não está
De um lado da porta está a liberdade na verdade
Do outro lado, a sala de estar

Podem te dizer que o absurdo é a liberdade
Não é mentira, não é novidade
Confesso que assuta, mas é a verdade

terça-feira, 14 de julho de 2009

A Prisão

“É tão válido representar um modo de aprisionamento por outro, quanto representar qualquer coisa que de fato existe por alguma coisa que não existe”
~ Albert Camus

Há várias formas de prisão.

Prisão (Você Por Aqui)

Eu nunca quis você por aqui
A sua censura é tão incoesa
A covardia de lutar sozinho
De manter presas as presas da presa

Eu nunca quis você por aqui
Me abraçar é um ataque tão baixo
Acho tão falsa essa preocupação
Eu acho

Eu nunca quis você por aqui
A covardia, você por aqui
Me abraça, você por aqui
Eu acho você por aqui