sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

As Camas e Os Sonhos


                Agarrou seu travesseiro. Pensou em abrir os olhos, talvez tenha pensado, mas não abriu. Não sabia exatamente em que cama estava, mas em seu âmago fazia ideia. No fundo de si, em seu peito soube e enfiou o rosto em seu travesseiro para esconder-se da verdade iminente. Sentiu-se observado. Estivera sendo observado desde muito antes e fora isso que o fizera acordar. Olhos quentes, coração quente, membros esquentando e envolvendo seu corpo, tomando seu peito e abraçando-o quente contra sua vontade fria. Virou para reconhecer os olhos que queimavam, donos dos braços que cercavam, das pernas que aninhavam e do que havia entre elas que o aprisionava. Ainda de olhos fechados, tateou o rosto dela com o seu, suas costas com suas mãos, suas coxas com suas mãos, seu rosto novamente e abriu os olhos. Seus olhos castanho claros viram os negros de Carmem.
                Dmitri aos poucos lembrava-se da noite anterior, de como Carmem aparecera em sua casa pouco antes das duas da manhã, de como ela esteve, bêbada e rancorosa e claramente a fim de arrepender-se por algo que não havia feito ainda. De como levantara-se de sua poltrona contra a sua vontade, deixando sua cerveja pela metade na mesa de centro, olhara para a janela e vira-a molhada e o chuviscar pesado por trás dela, para então caminhar até a porta e receber uma mulher sinuosa com quadris sinuosos, cabelos negros encharcados escorridos, rosto encharcado e escorrido e quase sem expressão senão a de súplica calada que pedia desnecessariamente urgente um abrigo, não da chuva, mas da vida, de sua casa, de tudo. De Luka.
                Acendeu seu cigarro e virou o rosto, não queria confrontar o rosto que jazia no que fora sua cama e agora era um túmulo. O que Luka pensaria? Amizade de anos – eram irmãos. Não desses de sangue, nem do tipo que se escolhe, mas aqueles dos quais não se pode escolher se é irmão, ou não – apenas se pode ser. Agora... Traíra Luka. E agora?
                Resolveu continuar de costas para Carmem e fechar os olhos. Cenhos franzidos, tentou repentina e gradativamente voltar a dormir. Pensamentos turbulentos, memórias recentes carregadas de sentimentos invadiram-no e reviraram-no.
                Por fim resolveu abrir os olhos novamente. Acordara sozinho, desta vez, num quarto diferente: o seu. Confuso, aos poucos tomou a noção de tempo que se perde quando se adormece e percebeu que este fora apenas um sonho. Não, não fora um sonho, aliás, apenas um sonho. Fora uma lembrança – a lembrança de sua primeira noite com Carmem.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Conversa de Lencóis I (Interlúdio)


- Eu bebi uma cerveja com ele. – Disse Carmem, cobrindo-se. – Mas foi só uma cerveja. Juro.
                - E daí? – Respondeu Luka, acendendo seu cigarro. Era um cigarro compreensível, aquele depois da transa. Ainda assim, Luka agora fumava muito mais do que já fumou ao longo de sua vida.
                - E daí nada. Achei que você fosse querer saber. Eu iria querer.
                - Por que gostaria de saber? O que há de especial nisso? Houve algo de especial nisso?
                - Primeiro que eu não gostaria de saber: iria querer saber, mas a muito contragosto e até bem relutante, mas iria querer, sim. Segundo que você sabe o que Dmitri quer de mim e suponho que não esteja confortável com isso.
                - Por que não estaria? Todo homem tem o direito de achar o que quiser, querer o que quiser. Ele está no direito dele em querer ter você e somos amigos. Respeito isso dele e sei que não é pessoal. Se você me trair com ele, a culpa será toda tua. Só tua.
                - Mas como assim? – Disse Carmem, cobrindo-se mais, além dos ombros, expondo apenas o rosto de pescoço coberto, os cabelo longos ruivos e macios e os dedos que seguravam o lençol.
                - Mas como assim que você está comigo. Você. Só você. Não é ele que está e se algo acontecer, terá sido falha tua. – E então Luka bateu as cinzas de seu cigarro no cinzeiro da cabeceira da cama, espreguiçando-se logo em seguida – Mas isso não importa, você não faria nada disso, faria?
                - Não faria...
                - Não?
                - Não, não faria... Não faria.
                - Tudo bem. Não faria. Sei que não faria. Me passa outro Lucky?
                - Claro. – pegando o maço e dando a Luka – Mas, Luka, me fala o que você foi fazer na quinta passada. Acordei no meio da noite sem você, uma folha queimada em cima da mesa, uma rasgada, presa na máquina de escrev...
                - Olivetti. Chama-se Olivetti. O-L-I-V...
                - Tá bem, tá bem. Uma folha rasgada presa à Olivetti, uma garrafa de uísque vazia ao chão, enfim, você longe. Você longe, o sofá vazio, minha cama vazia, minhas pernas vazias, meus braços vazios, tão frios, estava frio, tão frio e você deixou a janela aberta. Levantei para fechar a janela e pensei ter visto você equilibrado no parapeito da ponte dos mendigos, mas é loucura minha, não é? Vc não tem motivos pra pular, claro.
                - Claro. Loucura sua. Se eu tivesse pulado, não estaríamos conversando sobre você pensar ter me visto pulando de algum lugar.
                - Ai, Luka! Luka, eu fiquei tão preocupada! Nem dormi até você voltar! Bêbado, fedendo a Bourbon e a cigarros, mas vivo e em casa e comigo! Não sei onde estive com a cabeça ao pensar... Aliás, não, não pensei em nada. Vem comigo, me abraça. Me abraça e pela manhã você escreve sobre mim, sobre o quarto creme de luzes fracas amareladas e lençóis de cetim branco, sobre a cama circular, sobre meu beijo, sobre mim... Sobre nós dois.
                - Carmem – Luka estava atônito com o turbilhão que fora sua garota neste momento e em quanto ela deveria amá-lo para exibir uma paixão torrencial desta forma –, mas é claro que eu escreveria sobre nossa noite. Essa obra eu vou chamar de Gripe, pra fazer jus à gripe que peguei na quinta-feira.

sábado, 19 de janeiro de 2013

A Vista e As Surpresas


                - Tenho uma cerveja, quer? – disse de cenhos franzidos, virando o rosto para não olhar para ela. – Não é nenhum dos teus vinhos chiques, mas quebra um galho.
                Ele perguntou isso já sabendo que ela aceitaria a cerveja, nada poderia dar errado neste momento, fora tudo longa, fria, minuciosa e demoradamente calculado segundos antes. O tom, o jeito, o desinteresse, tudo falso, tudo ele, tudo do que ela precisa, tudo do que ela sentia falta em Luka, tudo o que ela não via desde que o conhecera, naquele Novembro chuvoso. Dias quentes de noites úmidas e abafadas, afobadas para cada pessoa naquela cidadezinha chamada Rio de Janeiro, uma pobre cidade grande que de tão longe parecia uma ilha.
                O terraço era o ambiente perfeito, aquele prédio era perfeitamente alto, as luzes perfeitamente amarelas e todo aquele mar de luzes acesas de todos os prédios menores, todos os postes nas ruas, sinais vermelhos, bares abertos, hospitais acesos com gente apagada, sinais verdes e carros parados, boates apagadas com gente acesa, mar de pessoas atravessando sinais amarelos e a noite começava nas onze da noite da zona sul do Rio. Essa era a vista que Dmitri e Carmem tinham e essa vista perturbadora e cativante seria capaz de criar o momento perfeito para que Dmitri pudesse conquistá-la. A véspera de Natal também dava a condição ideal para isso. Era só esperar a resposta – o álcool faria o resto.
                Dmitri tinha “quando”, “como”, “onde” e “porque” para fazer aquele “que” tão esperado com Carmem e agora...
                - Não, obrigado. Vc sabe que eu não bebo. – ...ela respondia.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Parapeitos e Ruínas


                Tec tec. Tec tec tec etec tectetec tectetetec tetec tec tec tectetectetectetetec tetetetetetetetetetec. Tec… Tec… Tec tec tectetetectetec tec tetec tec. Tec tetectetectetetecetetetetetetetectetec – MERDA! Merda, merda, merda! Não era nada disso! Nada disso!
                O estampido seco, forte e bruto na mesa não foi tão alto, mas foi tão agressivo que quase acordou Carmem. Esfregara os olhos e com dificuldade e cenho franzido observava Luka ter outro ataque ao interromper sua obra com falta de atenção, sono e inspiração, para logo então voltar a se perder no transe de seu torpor de sonhos.
                Não fumava, mal bebia e ainda assim pegara um copo limpo porém empoeirado para encher de Bourbon e acompanhar seu Lucky Strike. Infelizmente Luka passara tempo demais com Dmitri e agora tornara-se uma cópia barata sua, ainda que com talento indiscutivelmente superior ao original.
                Pousou o cigarro em sua boca para dar longas tragadas e passeou os dedos de sua mão esquerda testa acima, penteando seus – aos poucos rareando – cabelos negros e lisos, para então coçar um par de vezes sua nuca, dar a Carmem um olhar de testa franzida e sorriso de canto de boca daqueles de amor calculado, planejado, quase verdadeiro quase falso, que não diz nada demais, mas não diz nada de errado, só existe por existir num canto de quarto ao lado do abajur. Por amar esse amor de conhaque numa manhã chuvosa de sábado, decide sair sem avisar, sair sem querer, sair sem voltar talvez, talvez voltar, talvez, talvez outro dia quando ela não estiver mais lá. Talvez não devesse ter levado os cigarros.
                Um vulto subia as escadas que levavam ao andar de cima, mas não era um vulto tão importante. Nesse momento, só o lance de escadas que levava ao andar inferior e o que levava do andar inferior ao abaixo deste e assim por diante realmente importavam a Luka. O papel de parede floral velho e feio e desbotado não importava, a iluminação precária nos corredores e lances de escadas – ausente no lance de escadas entre o segundo e o primeiro andares – também não. De pouco em pouco Luka aproximava-se ao lado de fora do prédio. De frente à porta principal do edicífio – de ferro, com adornos dourados – Luka prontamente segurou a maçaneta, mas como que sentisse o que o esperava lá fora, como que esperasse o que o sentia lá fora, demorou a girá-la. Mas enfim girou-a.
                Um vento frio e seco cortou-o como um tablete de manteiga. Excitante para Luka. Gostava disso. Era não muito mais cedo que três da manhã e o céu era negro e limpo, sem estrelas, sem luar, sujo pelo brilho branco dos vários belos postes que iluminavam essa rua, boa rua bem habitada, com paralelepípedos no lugar de asfaltos, com árvores no lugar de pessoas, com solitude no lugar de solidão. O uísque caminhou Luka até uma ponte não muito longe e a fumaça de seus cigarros poderiam ser confundidas com a fumaça de sua respiração. Não via muito sentido no que fazia, nem no que vivia, nem no que escrevia, nem nas noites com Carmem, nem nas noites ou dias que passava sozinho mesmo bem acompanhado.
                Um último trago e com um toco de cigarro entre indicador e médio esquerdos olhou para o farol ao longe. Jogou não tão longe o toco de cigarro e riu, olhando com um olho esquerdo apertado e um olho direito fechado, seus polegar e indicador esquerdos agora espremendo a luz do farol. Sorriu como que satisfeito com seu trabalho bem feito. Jogou na água o copo vazio de sua mão direita e subiu no parapeito da ponte. A sensação era indescritível, toda a liberdade e toda a autonomia que o momento conferia. Toda a vida que ele finalmente sentia em seu corpo, em suas mãos, em seus dedos enquanto se esvaía, enquanto jorrava e pulsava e pulava por ele. Mas seu corpo não ia. Não pulava, não ia.
                Desceu do parapeito e acendeu outro cigarro e decidiu voltar para casa. Lembrou-se que não era possível se matar enquanto há uma obra-prima arruinada não amassada ainda presa a sua máquina de escrever.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O jazz amarelo de sábado pela manhã


Era a quarta noite sem dormir. O som do trem azul pela madrugada não o ajudava mais a descansar os olhos. Tateou os óculos na mesinha ao lado de sua cama, derrubando uma boa pilha de livros velhos já relidos e iluminando sem querer seu abajur que acende com um toque. Era uma noite quente, bem quente e a Radial Oeste é bem quente, essa tal Zona Norte carioca é uma travessa de metal esquecida num fogão aceso. Dmitri era um pouco de haxixe aceso sobre uma colher. Fumaça fugaz que em fuga se desfaz em graça.
Era quarta à noite e, sem dormir, o som do trem das oito não o deixava pensar direito. A noite de sexta seria grande e Dmitri deveria estar praticando ao piano, mas está segurando um cigarro já pela metade, já pela metade de si, meia idade, quase fim. Olhos vermelhos de sono de quase cinco dias e mãos trêmulas de quase cinquenta anos precediam uma manhã de quinta e Dmitri continuava sentado de frente para o piano de pouco em pouco decorado por mais e mais garrafas vazias.
Santa Teresa costumava cobrar qualidade de seus músicos e aquele não era um pianista à altura. Talvez a sombra de alguém que fora tão bom quanto arrogante e agora pague por isso. Talvez assombre-o saber disso e ele soube desde a chegada dos quarenta e desde que agora ele tenha passado a ser mais um a compor um quarteto de uma nova estrela jovem de futuro promissor – geralmente saxofonista ou trompetista e essa vez não fugiria à regra – que viria a lotar uma casa de shows escura e avermelhada mal iluminada por uma luz amarela a deixar o ambiente como que aparentemente engordurado – escolha minuciosa do tipo de lugar a ser montado, aconchegante aos que querem fugir do grande povo e unir-se à cena hype do fenômeno underground das pseudo-pessoas pseudo-cult que rodeiam as poucas pessoas que apreciam, de fato, a cultura. Algumas pouquíssimas pessoas estavam indo a esse show para ver Dmitri. Treze, apenas. Treze em Teresa.
Sexta mal chegara e Dmitri mal dormira e poucos tons variaram em seu piano, pouco fora praticado e o improviso já não seria mais tão confiável, infelizmente, porém, obrigatório ao longo do show. Tomou um bom banho e vestiu-se como bem gostava com uma bela camisa laranja de linho, uma calça de gabardine bege, seus antes belos agora velhos sapatos iate café de camurça. Poucos tons variaram em sua roupa. Estaria apresentável, caso pudesse controlar o odor de álcool que exalava por seus poros – álcool de cinco dias. Foram cinco dias de álcool. Fora uma longa subida até a casa de show, uma longa subida era Santa Teresa. A caminhada do camarim ao palco era longa para uma gente no meio de tanta gente e Dmitri, infelizmente, não era mais nenhum gigante para não se incomodar e ainda assim o teto era baixo demais. Como sempre começava Lá e caia em Si. Sempre facilitava.
Sábado, quase sete da manhã na Lapa, o dia amanhecia feliz com Dmitri redescobrindo-se enorme, como em toda manhã após um show. Se ainda fosse possível lembrar-se disso às três da tarde...

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Ela pintava o deserto em tons pastel



Do alto da estrada eu vejo um mar neon
No meio do nada, estrelas no chão

Do alto da estrada o frio é tão bom
E no meio do nada dos seus lábios, o som

Que indica que a vida se encerra
Semifusa em um semitom

A solidão que só entende a multidão

A solidão de um grão de areia

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Escaleno



                O mesmo bar simpático, com o mesmo quadro barato, com aquele mesmo garçom estabanado, com os mesmos drinques aguados, com a mesma guria de sempre que olhava sempre com olhos diferentes.
                Era pequena, a pele morena, a boca pequena, bem talhada com um batom rosa claro, delineando seu sorriso extenso. Seus olhos negros, mas como de um gato – grandes, cílios grandes, ovais e expressivos.  Cabelo longo, liso, negro, uma manta sobre seus ombros e que inutilmente protegia seu pescoço, cuja pele eu adorava marcar, mesmo contra sua vontade.
                Víamo-nos ao menos uma vez por semana e naquele bar. Talvez nós nos víssemos com mais frequência – mas de forma menos significativa, mais corriqueira –, ao longo da semana, mas nosso encontro, o de verdade, era sempre naquele bar.
                Se ela não viesse sempre, eu duvidaria que ela gostasse de mim, duvidaria que ela quisesse me ver, pois olhava o relógio com frequência e sempre, a cada olhar escondido ao relógio, vinha a sorrir aquele sorriso, como mil braços, mil cordas e eu me perdia em rosa, nos seus lábios, queria mil abraços, mil beijos e ela me dava corda e terminávamos felizes – eu conseguia meus beijos e ela conseguia me prender.
                Vestido florido, curto, tomara que caia me tirando do sério e eu precisava me distrair de alguma forma, então chamei o garçom e pedi a ele duas doses de conhaque e uma soda e ele prontamente girou desengonçado entre os calcanhares e saiu desengonçado entre mesas para me atender. Ao menos tinha bom coração, gostava do que fazia e era extremamente eficiente. Soda misturada aos copos de conhaque, bebemos um gole e ela me fala que este é um drinque muito forte e ri sem jeito. Acompanho-a, sem muito efeito, apenas para ganhar tempo de olhar bem seus olhos. Desvio os olhos para suas mãos e escapa-me um suspiro – sempre escapava o mesmo suspiro, ainda que o mesmo escapasse tantas outras vezes de forma mais sutil.
                Pergunta-me o que houve, sabendo a resposta. Desvia os olhares e me beija as mãos e volta a me olhar, de um jeito incisivo, como que eu não tivesse direito de me chatear, mas que, ainda  assim, ela me perdoasse. Não que eu não estivesse confuso, mas eu aceitava o perdão de bom grado. Ela me beija o rosto e eu sou dela. Toda vontade que eu sentia era destinada a ela – para ser sincero, isso não era novidade: sentia-me à vontade com ela e toda semana esperava ansioso pelo encontro da semana que viria, o próximo que sempre prometia ser o último – e eu sorria por seu sorriso, estremecia quando passava seus dedos por seus cabelos para ajeitá-los e olhava sem graça para outra direção ao perceber que eu admirava-a.
                Sorrindo, libertei-me do seu cheiro, da sua visão e pus-me a olhar o mesmo quadro barato de antes. Aquele com cores frias, nublado, verde e azul do pasto ao redor do lago e um detalhe de uma cabana à margem e aquele quadro sempre terno sempre me alegrava com sua solidão, até lembrar-me que aqueles finos lábios rosa que cerravam aquela linda boca pequena já se abriram para contar-me que a paisagem lembra o casebre de seu marido, visto ainda da serra. Ela evitava olhar para o quadro por saber que me lembrava daquele meu rival.
                Eu seria capaz de passar todo esse tempo calado, sem tocá-la, apenas para apreciá-la ao meu lado. Eu seria capaz de matar todo e qualquer marido que viesse tomá-la de mim, roubar o que nunca foi meu por direito, mas quem saberia direito tomar o certo do errado se não há lei entre dois corações pulsantes? Então eis que ela me responde breve, com uma pergunta, mas como quem forçasse para não engasgar com verdades:
                - Se toda vez não fosse a última, você ainda iria querer ver uma mulher que não pode ser sua?
                E no mesmo bar simpático, com o mesmo quadro barato, com aquele mesmo garçom estabanado, com os mesmos drinques aguados, penso se a mesma guria de sempre que olhava sempre com olhos diferentes voltaria a me ver.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Ruído branco


                Poderia ser neon, mas é uma ponta de cigarro.
                Esfrego os olhos até o conhaque abandonar o borrão que acompanha a vista. Às quatro e meia, a tarde ainda costuma ser clara – e seria, não fosse o céu nublado. As cadeiras encontravam-se, em sua maioria, vazias. Ambulantes, comércio de rua, transeuntes, bêbados, colegiais, calouros, você e os demais. Entre um trago e outro, olho seus olhos.
                Vejo o carmim que contrasta tão bem com seu tom de pele curtido. Ouço sua voz e de repente é cinco. Vejo seu sorriso e continua cinco. Você me beija e de repente seis. Você me deixa e já é outro dia.
                Duas olheiras a mais, um maço a menos e um copo vazio, novamente ao parapeito – as cores me fogem e só me sobra novamente o cinza do nublado. Sem esperar, vejo gotas de chuvas  espalhadas e o horizonte como ruído branco, como que mostrasse que a vida não está em sintonia, estou perdendo o sinal e aos poucos o que está a poucos palmos fica turvo. Sem cores, sem visão, sem você.
                Poderia ser neon.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Soldado de Chumbo


                Esfregou os olhos e bateu o copo de dose na bancada. Apontou para o fundo do copo para o barman e esperou a nova dose chegar à borda. Olhou o fundo distorcido por trás do translúcido uísque, encarou o que não havia para se ver com olhar ébrio e novamente voltou sua atenção ao copo. Virou.
                Esfregou os olhos e bateu o copo de dose na bancada. Puxou um cigarro do bolso interno de seu paletó e levou-o à boca, acendendo-o.  A primeira tragada é única e ele sabe e aproveita – sopra lentamente a fumaça para a última estante de bebidas. Logo um homem razoavelmente alto, razoavelmente forte, razoavelmente idiota rudemente se põe a mandá-lo apagar o cigarro. Em resposta, Dmitri apaga o homem razoável.
                Educadamente convidado a retirar-se e agora com um olho roxo e duas mãos doloridas, Dmitri segue seu destino cambaleando debaixo de luzes amarelas e fracas dos postes enfileirados ao longo da rua. Com um novo cigarro à boca, lembra que Emília não gostava de seus cigarros. Ninguém gostava. Talvez só Emília importasse naquele momento.
                Emília havia sido sua última com seus olhos azuis, nariz aquilino, sapatilhas de bailarina e sorrisos e sorrisos. Dmitri decidira nunca mais vê-la e votos como tais jamais poderiam ser quebrados e em uma noite como essa ele obviamente iria até a casa dela.
                Não faltava muito para chegar e ele vinha pensando em como era uma pessoa difícil e que talvez não pudesse culpar Emília por tê-lo deixado, não poderia culpá-la por odiar o que havia de duro e frio nele – seus olhos de chumbo, seus punhos de chumbo, seu coração de chumbo – e tudo o que havia de mau e inconsequente, como seu alcoolismo, ou seu fumo exacerbado.  Suas noites não eram as mesmas há tempos e há tempos só lhe restava o negro sobre negro do céu sem estrelas da cidade grande, os vagalumes em volta dos postes – pequenas constelações urbanas –, o vermelho dos punhos, manchas sobre manchas que transbordamos sobre a vida como vinhos tintos sobre camisas de linho. Certas manchas, quando ficam, costumam estragar a melhor das camisas e em casos como este não há escolha senão a de jogá-la fora e vê-la queimar e queimar e queimar até que só reste a lembrança.
                Emília não gostava do boxe, não gostava das lutas, das brigas de bar. Encantaram-na até revelarem-se hábitos. Tentara dissuadir Dmitri a parar tantas vezes. Agora seria a vez dele de tentar dissuadir Emília e fazê-la parar de beber para escutá-lo, aceitá-lo novamente.
                Enfim chegara à portaria de seu prédio. Prédio antigo, com tanta classe.
                Emília...
                Interfonou e aguardou resposta, esperando que a mesma tardasse. Tão logo o tocou, uma voz doce e sonolenta respondeu um triste e sonolento “Alô?!” de quem esperou por horas. Entrou pela porta pesada de ferro com vidro e subiu a escada em espiral – o que sempre fora difícil enquanto estivera bêbado, ou seja, sempre – para chegar ao segundo andar.  A porta estava entreaberta, mas Dmitri bateu-a por hábito, para em seguida fechá-la. Emília esperava no sofá com estampa floral, com olhos tristes de azul sobre vermelho, pobremente iluminada por um abajur a meia-luz e pelo singelo ponto do cigarro em seu cinzeiro.
                Tamanho foi o espanto de Dmitri ao vê-la fumando. Como poderia ela... ? Fez o que tinha a ser feito: atirou o cinzeiro pela janela, quebrando-a. Emília acompanhou com os olhos o cinzeiro ao passo que ele abandonava seu lar e não teve reação. Dmitri apanhou o cigarro entre seus dedos e jogou-o no lixo. Seus olhos tremiam de excitação e raiva enquanto ele gritava para que ela fosse deitar, que ela dormisse e que tão logo se encerrasse aquela noite. Emília assentiu sem reação e foi deitar, escoltada por Dmitri até sua cama. Ao voltar para a sala, Dmitri viu um frasco vazio de Valium e soube finalmente que ela não estava bem. Que, apesar de seus olhos, de seus punhos, de seu coração, Emília o amava e que as noites sem ele também eram duras para ela. Esperança figurou em seu discreto sorriso ao sair e Dmitri se pôs a descer as escadas em espiral.
    Ao chegar ao portão de saída, parou. Parou para pensar na noite que se desenrolara e em quão estúpido vinha sendo.  Em como poderia ser melhor para Emília. Em como deveria ser melhor para ela. Pararia de beber, de fumar, de brigar. É, talvez houvesse esperança para tipos como ele, talvez fosse essa a chance de recomeçar. Ou não.
Sentiu cheiro de queimado. Cheiro forte de queimado e vinha de cima, talvez do segundo andar. Subia correndo as escadas em espiral, mas um passo em falso o fez cair e rolar escada abaixo. A dor lasciva percorria seu corpo e sua perna pulsava forte, tão forte – uma fratura exposta na tíbia esquerda era tudo de que Dmitri não precisava naquele momento. Apenas o álcool e a determinação mantinham a dor suportável o suficiente para checar se Emília estava bem.
À porta dela, percebeu que o cheiro vinha de seu apartamento. Por sorte a porta era feita de madeira frágil, mas ainda assim teve de se esforçar para arrombá-la. Aterrador fora sua visão ao entrar – o incêndio se alastrou pela casa inteira e o foco claramente era a lixeira. Mancava e cada passo era mais difícil que o anterior e tudo o que o movia era sua vontade de salvar Emília. Entrou em seu quarto para encontrá-la desmaiada, impossibilitada de acordar, impossibilitada de fugir, de sobreviver sem sua ajuda. Tomou-a em seus braços e pôs-se a correr o quanto pôde para fora daquele lugar, porém sua vontade era tanta, tanta e infelizmente não era o bastante – tropeçou sob seu joelho esquerdo e sentiu que não era mais possível continuar. A dor e a massiva inalação de fumaça estavam expulsando rapidamente sua consciência e Dmitri logo soube que não sobreviveria. Só pôde chorar, chorar por tanto, por tanto que não se atentou – o amor entre eles sempre estivera lá, no entanto agora estava fadado ao fim, a ser interrompido – “até que a morte os separe”.
Ao chorar, riu da ironia que era perder seus olhos de chumbo e perguntou-se se seu coração de chumbo iria finalmente derreter com o de coração de pano de Emília. Abraçou-a forte, agradeceu pelo incêndio e esperou pelo final.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

(Ensaio sobre) Cinza(s)


Ventava tanto. Muita gente abrigava-se naquela passarela aberta, no segundo piso. Carros passavam, logo abaixo, para-brisas trabalhavam lentos, debris se formavam ao centro da paisagem dos olhos desinteressados, fixos em lugar algum.
Eu olhava para qualquer lugar.
Céu cinza sobre nuvens cinza sobre prédios cinza com gente cinza e ela quieta me olhava. Sorria. Sorria um sorriso amarelo, amarelo, mas já me aquecia. Eu batia as cinzas só para desviar o olhar, para quebrar aquele momento insuportável, aquela saturação de ar nos meus pulmões, rubor em meu rosto, cinza todo o resto e eu não resistia e olhava novamente, apenas para vê-la sorrir e desviar o olhar.
Eu tragava para qualquer lugar.
As pessoas e os burburinhos, de mansinho se aquietavam pela minha falta de interesse e tornavam-se ruídos surdos, gente borrada, um blur no meio do nada, um momento particular. Meu momento. Talvez o dela, também, mas o meu momento.
Olhos cerrados, olho-a de lado e encontro seus olhos a me esperar.
Levanto para chegar à beira da passarela, passo meus olhos pelo cinza ao céu, pela chuva ao chão, pelas pessoas atravessando a rua com pressa – e elas riem, riem, riem e aproveitam um breve retorno aos dias de criança – e disfarço, mas penso nela e em como é estranho não ter outras coisas pelo que pensar. Bato as cinzas à beira e vejo o vento tragá-las consigo até longe, bem longe. Imagino que essa seja a liberdade – viver a mercê da corrente, sem escolha e sem rumo, sem culpa, sem fim. Apenas espera-se queimar e queimar bem rápido e deixar o vento trabalhar.
Nessas horas, principalmente ao ver novamente tais olhos negros com sorriso branco, agradeço por não ser livre. A escolha ainda é minha.