sábado, 28 de janeiro de 2012

De noite é impossível não notar quando se está só

E por isso, sob a luz da lua, tememos tanto a solidão.

Solidão

Ouça os estalos da chuva
Sua mistura com o burburinho
Sinta sua visão turva
E embaçada quando você está sozinho

Tente manter-se calmo, embora às escuras
Ruas se mantêm vazias e frias
Mesmo com tantos olhos escondidos observando
A solidão que passa tão só

A solidão que passa tão só

Calçadas vazias cheias de gente vazia
E os rostos vazios dispostos em troca de alguns trocados
E janelas frias fechadas protegem rostos fechados
E frios e a postos para a solidão que assola

A solidão que assola

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Os nomes

Não, eu não me apaixonei por você.
Desculpa.
Eu sei, sei tudo o que disse, sei das minhas crises, das minhas cicatrizes, mas eu me enganei – nunca te amei, nunca me apaixonei por você, na verdade eu mal te conheci.
Desculpa.
A verdade é que eu nunca fui seu. A verdade é que eu sempre fui da Beatriz, aquela que imaginei através de você, aquela que eu já imaginava há tanto tempo, aquela que confundi contigo – embaralhei os nomes, mas eu já a conhecia. Conheci-a quando eu tinha mais ou menos dezoito anos e me apaixonei de verdade pela primeira vez.
Você nem teve chance, desculpa.
O grande arrependimento é que você até parece o tipo do qual eu gostaria, você parece o tipo que me faria feliz, talvez, mas eu esperei tanto por ela que não aceitei uma pessoa diferente. Jamais aceitei – nenhuma das outras por quem acreditei ter-me apaixonado foi Beatriz, nem um pouco Beatriz, da cabeça aos pés outra pessoa.
Você merecia mais, desculpa.
Sinceramente, hoje eu entendo que ouvia teu nome e imaginava Beatriz. Linda, alva, jovem. Via-me jovem, via-te jovem, via-te Beatriz. Via-te Beatriz como via Camilas, Gabrielles, Renatas, mas minha escolha sempre foi por Beatriz. Fui te conhecendo e descobrindo em você um nome completamente diferente. Daquele momento em diante, pude te chamar pelo teu nome, o problema foi que vinha ficando mais e mais claro que você não era nenhuma Beatriz.
Seu nome, esqueci, desculpa.
Ou protejo-o, discreto. O que realmente importa: conheci muitas e muitas mulheres nessa vida e em todas vocês eu procurei por Beatriz e muita gente se machucou enquanto eu me machucava. Sei que há por aí alguma Beatriz para amar, mas às vezes, ao ver a fumaça dos cigarros frustrar-se ao falhar em cobrir a lua, pergunto-me se saberei seu nome ao encontrá-la.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Reflexões

... São as responsáveis por um mundo mais tolerável. Posto agora algo que futuramente será um vídeo.


Mantra de Compaixão

E você poderia pensar que talvez
Pudesse ser perda de tempo, mas eu
Tenho certeza
Que há algum lugar melhor para nós dois

E para o resto do mundo
Para quem estiver pronto para'travessar
Para outro lugar
Livre do sofrimento que nascemos
Pra criar

E enquanto isso eu vou estar aqui

sábado, 29 de outubro de 2011

A gente toma iniciativa...

... viola na rua a cantar, mas eis que chega a roda-viva e...

http://www.youtube.com/watch?v=ue2IxSEvu-M

sábado, 22 de outubro de 2011

Atravessando

Sinais Vermelhos em Versos Brancos

Hoje eu quis tanto te encontrar, lembrei dos outros dias – outrora irrelevantes, e agora tão distantes – só posso sentir saudades.

Amanheci tão cinza, o céu estava tão nublado e o sol tão tímido e tão distante

Como você, como você está tão longe. Não está perdida, está?

Hoje os ponteiros do relógio quiseram me ajudar, como sinais vermelhos fora do ar.

Ontem à noite eu dormi com você no olhar, no olhar.

sábado, 15 de outubro de 2011

Alfa e...

Ômega

- Eu não vou conhecer o amor – disse Leo, com seu rosto triste, olhando a multidão de rostos igualmente tristes a sua volta, sombrios e enegrecidos pelo desamparo e pela má iluminação.

Leo não era tão bonito, mas era bem apessoado com uma altura razoável, nem gordo, nem magro, uma barba opulenta e cabelo sempre bem penteado. Era uma alma carente, sem dúvidas, e isso poderia era fácil de notar, visto que tão cedo já pensava em se assentar. Era um ótimo tipo com quem se mantém uma amizade, mas não fazia o tipo das mulheres, dado que não era tão forte, não era tão estúpido, respeitava e ligava demais para seus sentimentos e gostava demais das artes – não era um homem de verdade para a maioria delas. Invejava a capacidade dos outros de lidar com o outro sexo quase tanto quanto invejava aqueles que ficariam vivos depois do “juízo final”.

Dmitri o observava com pena. Nem tanta pena, assim, mas já era alguma coisa para Dmitri. Não lamentava por nada, não pensava em muita coisa, tentava apenas segurar sua onda – “a vida já é difícil sem crises de pânico”, costumava pensar. Falava muito, falava demais às vezes, e levava consigo inúmeros vícios – Dmitri e Leo não eram, afinal, tão diferentes, mas Dmitri disfarçava sua carência com seus vícios, enquanto Leo, supostamente evoluído, encarava-a.

A multidão corria, se atropelava, era uma manada de antílopes na savana africana e ainda assim parecia apenas crescer, mesmo com a debandada. Ninguém enxergava nada, apenas vultos todos tão parecidos, todos vestidos de roupas inteiramente brancas que destoavam tanto num ambiente tão escuro – pouco se sabia sobre ele, pouco se via dele, apenas paredes, teto e chão rubros, como que cobertos de carne, sangrentos e ensopados e a cada toque soavam como poças e ao debandar da manada soava como uma chuva torrencial. Dmitri queria um cigarro, mas o ambiente era tão fechado, tão pequeno que mesmo ele sentia-se desconfortável demais para fumar lá dentro.

- Eu não vou conhecer a amizade – e era verdade: cada pedaço de vida era individualista naquele pequeno ovo em que se amontoavam. A ansiedade impressa em rostos iguais poderia facilmente se fazer passar por uma obra perturbadora de Warhol e, em especial, o rosto desolado de Eduardo era cativante.

“Ninguém chega a conhecer a amizade, amigo”, respondeu Dmitri. Eduardo era gordo. Muito gordo, muito feio, muitas vezes ridicularizado e desde sua primeira lembrança de existência fora rejeitado pelos outros. Era uma pessoa dura, começou a se defender cedo demais, revidar cedo demais e o gosto amargo da exclusão logo foi ofuscado pelo azedo da solitude – evitando a rejeição, rejeitou o mundo, rejeitou os outros, rejeitou cada um e não mais seria dada outra chance a ele para viver em sociedade. Eduardo podia fingir que não, mas isso importava – E MUITO – para ele. “A amizade carrega consigo um anagrama para “azeda”, companheiro”, completou Dmitri, que também rejeitava o mundo para evitar ser rejeitado e nisso eles eram iguais, exceto pela escolha de Dmitri ser mais covarde: o mundo jamais houvera rejeitado-o e fora ele a dar o primeiro jab.

Uma cena comovente e inesperada descrevia, desesperada, o momento: parte da multidão agora se abraçava e chorava junto e se despedia. Parte da multidão que não se conhecia e sentia pena de si e disfarçava fingindo sentir pena uns dos outros. Todos de joelhos, como uma comunhão, como um dia comum, como um domingo, como um pedido de graças – porém, ledo engano: não eram graças, porém perdão; não um domingo, não havia dia, não havia tempo; não era comum, era o apocalipse; não uma comunhão, mas o jejum que antecede o abate no matadouro – e todos davam as mãos.

- Eu não vou conhecer a verdade – e de todos os desesperados, talvez fosse ele a conhecê-la melhor. Os secos e suaves toques se perdiam nos segundos que marcavam, no chão, no meio de tantos passos corridos e naquele momento, não fosse o mesmo sentido que o abandonou, seria impossível notar sua bengala branca e consigo sua cegueira. Xavier não sabia o quão próximo da verdade realmente estava. Tinha a barba mais rente dentre as demais do recinto – o toque era, dos sentidos, seu preferido. Era perfeccionista e mantinha impecáveis aparência, caráter, destreza física e mental. Nenhum vinco mal feito em suas calças jamais passara por ele despercebido.

“Se ver a verdade fosse tão fácil, não haveria alcoólatras, viciados em boletas e o resto dos perdedores”, pensou Dmitri. Não havia – sinceramente, nunca houve – em Dmitri algum tipo de restrição moral que estreitasse um laço terno com a verdade. Não tinha nada contra a verdade, nem era de mentir para tomar vantagem em cima de alguém, tampouco se permitia que um conceito tão superficial pudesse trazer-lhe qualquer desvantagem, portanto mentira sempre que conveniente. A verdade, a propósito, era conhecida por Dmitri – não havia motivos para envergonhar-se, pois cada um daqueles que tanto soluçavam choros esperava com ele por um milagre, pois nenhuma alma presente era santa, pois eram todos iguais, pois – salvo poucas vidas evoluídas como aquela desprovida de visão – a sobrevivência falava mais alto, sempre falou mais alto e esse instinto agora está pedindo as contas de seus pecados.

- Eu não vou conhecer a mim mesmo – disseram em uníssono Davi e Jônatas. Gêmeos, porém completamente opostos – como o clichê sugere –, não eram tão amigos. Sempre tomados pelo outro, eram sombras de si mesmos, sombra de rostos idênticos e personalidades conflitantes. Extremamente belos, adotavam aparência igual, pois nenhum dos dois seria capaz de ceder ao outro algo tão seu quanto sua imagem para conseguir ser individual.

“Não é tão fácil quanto o espelho faz a gente pensar que é” e Dmitri sabia disso. Mal olhava seu reflexo no espelho – não tinha coragem para isso. Embriagado, era possível. Tudo era possível. O quão distante uma pessoa pode ser de seu reflexo? Davi e Jônatas, ambos, aparentavam ser pessoas completamente distintas do que realmente eram – distintas das outras, distantes de si, distraídas pela vida, como o resto do mundo. Stevenson recorreu a descrever e dissertar sobre o unheimlich em seu mais famoso conto e Davi e Jônatas talvez fossem uma pobre alegoria antitética para Jekyll e Hyde – que dividiam um corpo sem dividir aparências, em detrimento aos gêmeos que dividiam uma aparência sem dividir corpos. Ambas as duplas de personalidades fadadas a responder pelo seu duplo, obrigadas a carregarem consigo estigmas de ações das quais não queriam fazer parte. Dmitri sentia isso, sentia o peso sobre seus ombros – sabia que sob o efeito da bebida era outra pessoa, completamente diferente, e que responderia por isso a cada manhã que girasse por cima de sua nuca enquanto levantava-se de uma cama encharcada de suor.

A multidão parava, finalmente. Talvez estivesse cansada de tanto dar voltas e voltas desesperadas e estivesse finalmente aceitando que aquele era o fim – davam passos curtos, quase homogêneos entre eles: uma marcha ao fim. Inferno, ou céu, não havia mais medo, só desolação, só desilusão. Gemidos contínuos podiam ser ouvidos cada vez mais altos, cada vez mais freqüentes e cada vez mais. Entre o burburinho, entre tantas pessoas andava uma última – destacava-se por ser uma das últimas a mostrar seu rosto, uma das últimas a andar de cabeça erguida, uma das últimas a continuar respirando como sempre respirou – ofegante, mas naturalmente. Um velho conhecido de Dmitri, Luka, vinha se aproximando.

- Acho que não vou conhecer meus irmãos, meu velho.

Dmitri não sabia o que dizer, pela primeira vez desde que o pânico havia começado. Era uma idéia difícil de aceitar, essa de morrer antes mesmo de nascer. A masturbação mataria cada um deles, um a um, um de cada vez, uma jorrada contínua. Mais alguns segundos e não haveria mais Leo, Eduardo, Xavier, Davi, Jônatas, Luka, ou Dmitri, ou qualquer um dos tantos milhões de rostos parecidos e carentes de tudo o que jamais conheceriam. Ao passo que gemidos tornavam-se suspiros opacos,a multidão começava dispersar-se, sem escolha – o saco estava começando a esvaziar e nada ajudaria – parecia irrelevante, agora, conhecer o amor, ou a amizade, ou a verdade, até mesmo conhecer a si próprio, ou a seus irmãos. E quando quase todos haviam sido expulsos das bolas, Dmitri encontrou suas palavras, agora suaves.

- É, acho que não. Quem sabe nos encontremos em outra vida, Luka...

E agora só restava o fim.


sábado, 20 de agosto de 2011

Num vai e vem...

Depois de um bom tempo novamente distante, cá estou. Amanhã gravo algo e mostro ;)

Às Vezes Não

Às vezes não temos a menor noção
De como uma cama, um drinque, algumas palavras
Incidirão em nossas vidas

Às vezes não temos qualquer compaixão
E em só uma cama, um drinque, quaisquer três palavras
Trarão noites perdidas

Em vão

Duas pessoas
Se machucarão
O mergulho de um sonho
Do céu ao chão
Duas pessoas
Que trilharão
Um caminho, às vezes juntas
E às vezes não

E às vezes não

Às vezes não temos o céu aberto sobre nós
E as estrelas e o luar e as suas palavras
Quem sabe não queiram dizer nada

Então

Duas pessoas
Se machucarão
O mergulho de um sonho
Do céu ao chão
Duas pessoas
Que trilharão
Um caminho, às vezes juntas
E às vezes não

E às vezes não

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Emendando em outra

Agora uma recente, chama-se I Wanna Fall Asleep

I Wanna Fall Asleep

Eu não sei como vou dormir
E não quero nem saber
Entre goles de tônica e gim
Entressafras entre eu e você

À noite eu ponho meu melhor perfume
Aquele que eu pus para te conhecer
Bato seis cordas com dois olhos úmidos
Cigarro na mão e papel para eu escrever

Como os dias vão passando devagar
Que acordar de manhã pode ser doloroso e solitário
Como as noites passam me matando devagar
E que os dias sem tréguas dão tanto trabalho

I wanna fall asleep

À noite eu ponho meu melhor perfume
Agora pra outra que vou conhecer
Rasgo minha voz entre palavras duras
Um trago na mão e outro pra você

Os dias vão passando devagar – I wanna fall asleep
Acordar de manhã pode ser doloroso e solitário
As noites me beijam e me levam devagar – I wanna fall asleep
Os dias dão tanto trabalho

I wanna fall asleep

Voltando

Com algo já antigo, de março, mas ainda não postado. Venho com Tatuagens.

Tatuagens

Vou cobrir o meu corpo
De tatuagens
Pro amor não me reconhecer
Vou cobrir o meu rosto
Com falsas saudades
Me enganar que ainda quero te ter

Ando fugindo do escuro
Noites em claro no azul da tevê
Se em algum momento eu estive inseguro
Foi por não esperar ser feliz sem você

Até que um dia acordei à deriva em alto mar
Eu me encontrei e percebi que não deveria mudar
Apenas levar minhas mãos aos céus e dar
Graças a Deus – sozinho, eu posso me virar

Vou cobrir o meu corpo de tatuagens
O amor não vai me procurar
Vou cobrir o meu rosto com falsas saudades
Das quais você vai acreditar
Vou cobrir os meus olhos com meias verdades
E a paixão por você, vou poder negar

domingo, 29 de maio de 2011

Blindagem

Um escritor deve ser por inteiro, amar por inteiro, sofrer por inteiro, perder por inteiro. Até hoje amei tudo que pude, sofri tudo que pude, sem dúvidas perdi tudo o que pude, também. Faz parte de ser escritor, também, saber amassar os papéis que levam ao fim prematuro da história, gozar de seus vícios enquanto esvazia sua mente e escrever um futuro novamente sem abrir os olhos, mesmo que o medo o faça titubear.

Quem vive blindado está morto por dentro. Vejo minha vida passar pelos meus olhos toda vez que morro e limpo os escombros de meu rosto sempre que renasço. Toco os céus e emudeço as estrelas para que nenhuma possa desferir lembranças do passado sobre minhas noites.