domingo, 15 de maio de 2011

Olhos negros

Às vezes sinto que te perco
aos poucos, como fumaça de cigarro
inalo e você se vai, foge de mim

Busco na memória os olhos que não queria perder
quando você olhou pra mim com
olhos negros
e na memória você olha pra mim e só pra mim
e na memória você me beija e só a mim
e na memória os dias
e as tardes
e as noites
e as noites inteiras
só valeram com você e quando esperei amanhecer
pari um sol direto do coração
pois assim me sentia

Às vezes sinto que te perco
mas pra falar a verdade,
e você vai concordar,

Eu nunca te tive.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Sem besteiras e sem bebidas

Dmitri tentou pela sexta noite seguida, em vão – outra noite sem sono – ele dizia –, outra noite sem besteiras, sem bebidas, sem Beatriz.

Atormentado, perdia o foco que destinava a observar o lento movimento do ventilador de teto cada vez que seu coração pulsava. Não comia a cerca de trinta horas e não dormia a pouco menos de cento e quarenta, sua vista embaçava na falta de uns óculos e sua cabeça também, na falta de bebida.

Fora da cama num pulo, foi até sua mesa, alcançou um de seus Luckies e acendeu-o: ascendeu. Apoiado à janela, observando a Lua que se escondia atrás dos fundos do prédio que havia feito-lhe companhia nos dias que passaram em meio à fumaça azul de seu cigarro, Dmitri tinha uma certeza – ele havia cagado tudo desta vez, tudo, mas dias melhores viriam como sempre vinham quando ele pensava que estava tudo perdido. Eles sempre vinham.

- Outra noite sem besteiras, sem bebidas, sem Beatriz – repetiu, apagando seu cigarro na sacada, logo após deitando-se. Dmitri tentou pela sexta noite seguida e desta vez conseguiu.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Gripe

Ela não gostava dos meus cigarros. Não gostava do cheiro do cigarro, do gosto do cigarro, do mal do cigarro. Virava o rosto pros meus beijos depois que eu terminava meu cigarro e eu tinha de convencê-la com meus lábios a me querer novamente. Conheci-a tem duas semanas e sinto como se houvesse conhecido-a há meses e tivesse-a na minha vontade, na minha cabeça, há anos. Alva de olhos castanhos, cabelos claros, boca macia, corpo suave, ela ardeu em minhas mãos como uma garganta no deleite ébrio do conhaque. Jamais esqueceria o quarto escuro do motel se encolhendo claustrofobicamente ao tirarmos as roupas, num desdobrar de corpos, no febril arfar sob gemidos, no febril afã sobre seu corpo, no febril afago sob as cortinas. Por alguns momentos, cheguei a ter certeza de que queria acordar com ela pelo resto da minha vida, mas tudo parece possível em quartos escuros de motel – neles, os sonhos são reais e o coração sempre é correspondido.

Ela não queria nada, nada sério. Eu quis. Acho que ainda quero. Há algo de especial nela – eu não fumava perto dela, mal bebia perto dela e com ela eu fazia a barba dia sim, dia não e se isso não for um esforço considerável, eu não sei o que é. Ao conhecê-la eu peguei uma doença chata e comecei a tossir bastante – meus olhos ardiam, meu corpo ardia, a luxúria ardia, a luxúria queimava, queimava em febre. Ao conhecê-la eu peguei uma doença chata e meu coração não é o mesmo desde então.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Carrossel

Eu finalmente fazia uma melhor ideia de você. Há tempos eu já tinha noção, mas não sabia exatamente o que diabos, o que diabos eu sentia, o que diabos você era, por que diabos eu demorava a me levantar ao cair. E tudo era tão igual e todas as cenas se repetiam e os sentimentos repetiam e os beijos, os beijos, CÉUS, se repetiam e você não sumia nem por um segundo. Eu passeava em círculos até notar que corria sempre para o mesmo lugar e ainda assim era incapaz de lhe encontrar, você parecia nunca estar logo a minha frente, sempre à mesma distância, sempre tão distante. Minha bela menina, você é meu carrossel. Você é meu carrossel e eu não lhe encontro porque ando em círculos, mas nunca me veio à cabeça a idéia de procurar você no centro da miragem pela qual eu passeava.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Nosso momento

Ela não era de falar muito, não. Não posso culpá-la por estar apaixonado, pois ela nunca estimulou minha paixão. Não posso culpá-la pelos seus beijos que me corromperam o coração, de forma a tornar-me incapaz de aceitar outros, pois ela também podia dá-los a pessoas melhores, mais bonitas e que efetivamente fizessem seu sorriso durar pra sempre. Não posso culpá-la pelas suas frases roucas, pelos seus sorrisos, pelo carinho que me fazia no peito, nada disso. Se eu houvesse de culpar este momento, como poderia querer vivê-lo novamente para sempre? Se eu houvesse de culpar seus beijos, como poderia querê-los sempre em minha boca, em meu rosto, em meu corpo? Se eu houvesse de culpar tanto esta paixão, como poderia recorrer a ela nas noites sem fim e fazer de minhas horas um santuário inesgotável, um momento único de felicidade? Se eu houvesse de culpar a ela, como poderia eu olhar novamente em seus olhos lindos e negros, fitar seu sorriso – o mais lindo do mundo – enquanto observo-o se aproximar até nossos lábios se encontrarem e ter a consciência imaculada de que não poderia ser mais ninguém? Como poderia ter a certeza de que é ela?

Sinto que estou voando alto demais, rápido demais e que mesmo quando eu cair - mesmo quando ela me derrubar -, ficarei bem. Não tão bem, mas feliz por ter vivido tanto. Não seria um mundo perfeito sem seu beijo, minha paixão, ou nosso momento.